As infecções de ouvido em cães, especialmente as causadas por fungos, são comuns na prática veterinária. No entanto, casos recorrentes e de difícil tratamento têm chamado a atenção da ciência. Um novo estudo revela que mudanças genéticas em leveduras podem estar por trás da resistência aos antifúngicos, dificultando a recuperação dos animais.
O que está por trás das infecções persistentes
A otite externa fúngica é frequentemente associada à levedura Malassezia pachydermatis, um microrganismo naturalmente presente na pele dos cães. Em condições favoráveis, como alergias ou umidade excessiva, ela pode se proliferar e causar infecção.
Entretanto, quando essas infecções se tornam recorrentes, o problema pode ir além de fatores ambientais. De acordo com um estudo publicado na revista científica Veterinary Dermatology, conduzido por Cole M. Belcher em 2026, alterações genéticas nas leveduras podem torná-las menos sensíveis aos medicamentos tradicionais.
Mutação genética muda resposta ao tratamento
Os pesquisadores analisaram amostras de cães com infecções persistentes e identificaram mutações no gene ERG11, responsável por codificar uma proteína essencial para a membrana celular da levedura.
Essa proteína é justamente o alvo dos antifúngicos mais utilizados, como os da classe dos azóis. Quando ocorre uma alteração em sua estrutura, o medicamento pode perder a capacidade de se ligar ao fungo, reduzindo sua eficácia.
Além disso, o estudo identificou que:
- As leveduras analisadas se dividiram em três grupos genéticos distintos
- Algumas mutações não afetam diretamente a resistência, mas ajudam a entender a evolução do fungo
- Um aminoácido específico parece estar ligado à resistência ao miconazol, um dos antifúngicos mais usados
Nem todo antifúngico funciona da mesma forma

Outro ponto importante da pesquisa foi a resposta diferente aos medicamentos. Enquanto algumas cepas mostraram resistência ao miconazol, elas responderam melhor a antifúngicos com estrutura molecular mais complexa, como o posaconazol.
Isso acontece porque esses medicamentos possuem mais pontos de contato com a proteína alvo, aumentando a chance de ação mesmo diante de mutações.
Ainda assim, especialistas alertam que o uso indiscriminado de antifúngicos mais potentes não é a melhor estratégia. Pelo contrário, isso pode acelerar o desenvolvimento de novas resistências.
Uso inadequado pode agravar o problema
Um fator crucial para o surgimento dessas resistências é o uso repetido de antifúngicos sem tratar a causa de base. Em muitos casos, a infecção está associada a alergias ou outras condições que, se não forem controladas, levam à recorrência.
Entre os principais erros estão:
- Tratar apenas a infecção sem investigar a causa primária
- Uso prolongado de antifúngicos tópicos
- Falta de acompanhamento adequado após o tratamento
Essas práticas favorecem a seleção de leveduras mais resistentes, tornando o quadro clínico cada vez mais difícil de controlar.
Como melhorar o tratamento das infecções
Com base nas descobertas, a abordagem ideal tende a ser mais estratégica. O uso inicial de antifúngicos de ação mais simples, como miconazol ou clotrimazol, ainda é recomendado na maioria dos casos.
Já medicamentos mais potentes devem ser reservados para situações específicas, como:
- Infecções recorrentes
- Falha no tratamento inicial
- Casos confirmados de resistência
Além disso, identificar e tratar a causa subjacente continua sendo essencial para evitar recaídas.
Avanços que podem transformar a prática veterinária
O estudo publicado na Veterinary Dermatology abre caminho para uma abordagem mais personalizada no tratamento de infecções fúngicas em cães. Ao compreender melhor as mutações genéticas envolvidas, torna-se possível escolher terapias mais eficazes e preservar a ação dos medicamentos disponíveis.
Com isso, a medicina veterinária avança em direção a tratamentos mais precisos, reduzindo o sofrimento dos animais e aumentando as chances de recuperação completa.

