Abelha do Nordeste produz mel vermelho e intriga cientistas

Interior de um ninho de Melipona scutellaris, com invólucro parcialmente removido expondo células de cria (Imagem: Elichten - CC BY-SA 4.0)
Interior de um ninho de Melipona scutellaris, com invólucro parcialmente removido expondo células de cria (Imagem: Elichten - CC BY-SA 4.0)

A natureza oferece fenômenos pouco conhecidos que revelam a complexidade dos ecossistemas. Um exemplo fascinante é o mel de coloração avermelhada, produzido por uma espécie específica de abelha nativa do Brasil. Diferente do tradicional tom dourado, esse mel raro chama atenção não apenas pela aparência, mas também pela sua origem diretamente ligada ao ambiente.

Esse fenômeno está associado à abelha uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), uma espécie sem ferrão que ocorre principalmente em regiões do Nordeste. Além de produzir mel, essas abelhas desempenham papel essencial na polinização e na manutenção da biodiversidade. Entre os principais fatores que explicam esse mel incomum, destacam-se:

  • Influência direta da vegetação local;
  • Uso de resinas vegetais na estrutura da colmeia;
  • Produção de cerume (mistura de cera e resina);
  • Variação no néctar das flores visitadas.

O que torna esse mel diferente dos demais?

Diferentemente das abelhas com ferrão, que utilizam apenas cera, as abelhas sem ferrão produzem o cerume, uma substância que combina cera com resinas coletadas no ambiente. Esse material é utilizado para construir estruturas internas da colmeia, como compartimentos de armazenamento e áreas de criação. Como resultado, a coloração do cerume pode variar bastante, dependendo das plantas disponíveis na região.

A influência direta das plantas e do ambiente

Em áreas como manguezais e restingas, algumas plantas fornecem resinas com pigmentação avermelhada. Consequentemente, essas substâncias acabam influenciando tanto a aparência da colmeia quanto a tonalidade do mel armazenado. Além disso, o néctar coletado pelas abelhas também contribui para variações de cor, aroma e composição, tornando cada tipo de mel único.

Abelha Melipona scutellaris coletando resina em restos de colmeia abandonada (Imagem: Elichten - CC BY-SA 4.0)
Abelha Melipona scutellaris coletando resina em restos de colmeia abandonada (Imagem: Elichten – CC BY-SA 4.0)

A conexão com a própolis vermelha

Outro aspecto relevante é a relação com a própolis vermelha, um produto natural valorizado por suas propriedades biológicas. Tanto a própolis quanto o cerume têm origem nas mesmas resinas vegetais, o que explica a semelhança na coloração e nos compostos presentes. Por isso, colmeias com tonalidade avermelhada frequentemente estão associadas a substâncias com maior concentração de compostos bioativos.

Por que esse mel é tão valorizado?

Além do aspecto visual, o mel vermelho pode apresentar diferenças no sabor e nas propriedades nutricionais. Isso ocorre porque os compostos presentes nas plantas visitadas são incorporados ao produto final. Dessa forma, méis produzidos em ambientes específicos tendem a ser mais raros e valorizados, refletindo a riqueza química da biodiversidade local.

Portanto, o mel da uruçu-nordestina não é apenas uma curiosidade, mas um exemplo claro de como o ambiente molda os alimentos naturais. Em um cenário de crescente preocupação com a preservação, esse tipo de produção reforça a importância das abelhas nativas e da conservação dos ecossistemas brasileiros.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes