A acidificação dos oceanos pode enfraquecer os dentes dos tubarões, aponta estudo

Oceanos mais ácidos podem enfraquecer os dentes dos tubarões (Imagem: Getty Images via Canva)

Os tubarões ocupam o topo da cadeia alimentar marinha graças a uma combinação de sentidos aguçados, força muscular e dentes altamente especializados, capazes de se regenerar continuamente. No entanto, evidências científicas recentes indicam que a química dos oceanos em transformação pode comprometer essa vantagem evolutiva, criando um novo desafio para esses predadores ancestrais.

A acidificação dos oceanos, impulsionada principalmente pelo aumento do dióxido de carbono atmosférico, tem sido associada a alterações profundas nos ecossistemas marinhos. Agora, pesquisadores demonstram que esse fenômeno também pode afetar diretamente a estrutura e resistência dos dentes dos tubarões, com possíveis consequências ecológicas de longo prazo. Os cientistas identificaram mudanças relevantes quando dentes de tubarão foram expostos a diferentes níveis de acidez:

  • Aumento de rachaduras e microfraturas;
  • Corrosão da raiz dentária;
  • Perda da integridade estrutural do esmalte;
  • Maior fragilidade geral do dente.

Quando a química do oceano muda, a biologia responde

O estudo Simulated ocean acidification affects shark tooth morphology, publicado na revista Frontiers in Marine Science, por Maximilian Baum et al., em 27 de agosto de 2025 (DOI: 10.3389/fmars.2025.1597592), analisou mais de 600 dentes de tubarões-de-pontas-negras. As amostras foram expostas tanto à acidez atual dos oceanos quanto a cenários projetados para o ano de 2300.

Escala de danos na base dos dentes: 1 intacto, 2 leve, 3 moderado e 4 severo (Imagem: Maximilian Baum et al./ Frontiers in Marine Science/ CC BY)

Os resultados indicam que ambientes mais ácidos intensificam danos microscópicos, tornando os dentes mais suscetíveis à quebra. Embora essas mudanças não ocorram de forma imediata, o efeito cumulativo ao longo do tempo pode reduzir a eficiência alimentar dos tubarões, afetando sua posição como reguladores das populações marinhas.

Impactos que vão além dos tubarões

Além dos tubarões, a acidificação dos oceanos já é considerada uma ameaça grave para outros organismos marinhos. Moluscos calcificadores, como ostras e amêijoas, enfrentam dificuldades na formação de conchas, enquanto escamas de peixes podem se tornar mais frágeis. Essas alterações em cadeia têm potencial para desequilibrar ecossistemas inteiros.

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Apesar disso, os tubarões apresentam características que podem oferecer alguma resiliência, como a regeneração constante dos dentes e sua longa história evolutiva. Ainda assim, a acidificação surge como mais um fator de pressão, somando-se à sobrepesca, à poluição e às mudanças climáticas.

Mesmo não sendo a ameaça isolada mais imediata, a acidificação dos oceanos não pode ser ignorada. A perda gradual da eficiência dentária pode comprometer o sucesso alimentar, reprodutivo e ecológico dos tubarões, especialmente em espécies já vulneráveis.Compreender esses efeitos é essencial para orientar estratégias de conservação, reforçando a urgência de reduzir emissões de carbono e proteger os oceanos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes