Molécula no cérebro é chave para entender a coceira crônica

Estudo explica por que algumas coceiras não param. (Foto: Getty Images via Canva)
Estudo explica por que algumas coceiras não param. (Foto: Getty Images via Canva)

Uma coceira começa leve, cresce rapidamente e, em muitos casos, parece não ter fim. O que quase ninguém imagina é que o corpo possui um sistema interno sofisticado para controlar esse impulso. Uma descoberta científica mostrou que uma molécula presente no sistema nervoso tem papel central para entender por que a coceira se torna crônica em algumas pessoas.

A molécula que controla mais do que a sensação

Pesquisadores do grupo liderado por Roberta Gualdani, da Universidade de Louvain, em Bruxelas, identificaram que a molécula TRPV4 exerce uma função surpreendente na resposta do organismo à coceira provocada por estímulos físicos, como o próprio ato de coçar a pele.

Presente em neurônios sensoriais, essa molécula não se limita a participar do início da sensação de coceira. Ela também integra um mecanismo regulador que auxilia o sistema nervoso a reconhecer quando o estímulo já foi aliviado o bastante, contribuindo para o controle do comportamento de coçar.

Como o corpo identifica o momento de parar

No sistema nervoso, o TRPV4 funciona como um canal iônico, uma espécie de porta microscópica que regula a passagem de sinais elétricos entre as células. Esses sinais percorrem neurônios responsáveis por detectar toque, pressão e irritação na pele.

Além de transmitir a sensação inicial da coceira, esse sistema também participa de um processo fundamental chamado feedback negativo, responsável por enviar ao cérebro a informação de que o ato de coçar já cumpriu seu papel.

Esse mecanismo funciona como um sinal interno de “já chega”.

Quando o mecanismo falha

Para investigar esse processo, cientistas estudaram camundongos com ausência do gene TRPV4 apenas nos neurônios sensoriais. O comportamento observado foi inesperado:

  • Os animais apresentaram menos episódios de coceira
  • Cada episódio se tornou mais longo e persistente
  • O comportamento de coçar perdeu o controle natural de interrupção

Isso indica que a dificuldade não está apenas na percepção da coceira, mas na ausência do sinal que indica o momento de encerrar o ciclo.

O impacto da perda do “freio natural”

Falha no TRPV4 prolonga episódios de coceira no corpo. (Foto: Valeriy Voennyy via Canva)
Falha no TRPV4 prolonga episódios de coceira no corpo. (Foto: Valeriy Voennyy via Canva)

Sem a atuação adequada do TRPV4, o cérebro deixa de receber o aviso de satisfação. Com isso, o ciclo de coceira continua ativo por mais tempo, o que ajuda a explicar quadros persistentes.

Esse mecanismo se relaciona com condições como:

  • Dermatite atópica
  • Psoríase
  • Coceira crônica associada a doenças sistêmicas

Uma função dupla no organismo

Um dos pontos mais importantes da descoberta é que o TRPV4 atua de forma diferente dependendo do local:

  • Na pele, participa do início da sensação de coceira
  • Nos neurônios, atua no controle e encerramento do comportamento de coçar

Essa atuação dupla mostra que o sistema de coceira depende de um equilíbrio fino entre estímulo e interrupção.

Novos caminhos para tratamentos

A identificação desse mecanismo abre espaço para novas estratégias no tratamento da coceira crônica. Em vez de apenas bloquear sinais de irritação, as pesquisas passam a considerar abordagens que busquem restaurar o equilíbrio do sistema nervoso, preservando o feedback natural que indica o fim da coceira.

A descoberta apresentada na 70ª Reunião Anual da Sociedade de Biofísica indica que a origem do problema não está apenas no estímulo da coceira, mas também na falha do sinal que encerra esse processo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn