Demência pode ser detectada antes dos sintomas com um simples EEG 

EEG identifica sinais precoces de demência cerebral. (Foto: Getty Images via Canva)
EEG identifica sinais precoces de demência cerebral. (Foto: Getty Images via Canva)

Alterações no cérebro podem começar de forma silenciosa muitos anos antes dos primeiros sinais de perda de memória ou declínio cognitivo. Nesse cenário, a eletroencefalografia, conhecida como EEG, ganha destaque como uma das ferramentas mais promissoras para identificar mudanças precoces na atividade neural associadas às doenças neurodegenerativas.

Uma revisão publicada em npj Dementia (Guo & Lisgaras, 12 de maio de 2026) reforça que o EEG pode funcionar como uma “janela funcional” do cérebro, capaz de revelar disfunções de rede antes mesmo da manifestação clínica da demência. Isso ocorre porque o método capta, em tempo real, a atividade elétrica cerebral com alta sensibilidade temporal.

O cérebro em “tempo real” sob análise

O EEG se destaca por ser um exame não invasivo, acessível e de baixo custo, amplamente utilizado tanto na prática clínica quanto em pesquisas. Além disso, ele permite observar padrões como:

  • Lentificação das ondas cerebrais
  • Alterações em ritmos como alfa, beta, theta e delta
  • Sinais de hiperexcitabilidade neural
  • Mudanças na conectividade entre regiões do cérebro

Com o avanço de tecnologias como inteligência artificial e aprendizado de máquina, o exame passou a identificar padrões sutis que antes eram invisíveis à análise tradicional.

Assinaturas elétricas das doenças neurodegenerativas

Ondas cerebrais revelam risco antes dos sintomas. (Foto: Getty Images via Canva)
Ondas cerebrais revelam risco antes dos sintomas. (Foto: Getty Images via Canva)

A pesquisa destaca que diferentes tipos de demência apresentam “impressões digitais” distintas no EEG. Entre os principais padrões observados estão:

  • Doença de Alzheimer: redução do ritmo alfa e aumento de ondas lentas
  • Demência com corpos de Lewy e Parkinson: lentificação mais acentuada e alterações na conectividade
  • Demência frontotemporal: alterações mais focadas nas regiões frontais
  • Doença de Huntington: mudanças iniciais em regiões parieto-occipitais

Essas diferenças ajudam não apenas no diagnóstico, mas também no diagnóstico diferencial entre demências, um dos maiores desafios da neurologia atual.

Sono e atividade cerebral: uma conexão crítica

Outro ponto importante é o papel do EEG do sono, que revela alterações importantes como:

  • Redução de fusos do sono
  • Fragmentação do ciclo sono-vigília
  • Perda de ondas lentas restauradoras

Essas mudanças estão diretamente ligadas ao acúmulo de proteínas associadas à neurodegeneração, como beta-amiloide e alfa-sinucleína.

Além disso, a presença de atividade epileptiforme durante o sono pode indicar maior risco de declínio cognitivo, mesmo antes dos sintomas aparecerem.

Por que o EEG pode mudar o futuro do diagnóstico?

De forma geral, a revisão aponta que o EEG pode ser usado para:

  • Identificação precoce de risco de demência
  • Monitoramento da progressão da doença
  • Apoio ao diagnóstico diferencial
  • Avaliação de resposta a tratamentos

Ainda que existam desafios, como variabilidade entre pacientes e necessidade de padronização, o potencial clínico é significativo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn