Genética pode explicar falha de remédios GLP-1 em parte dos pacientes

Gene PAM pode influenciar tratamento do diabetes tipo 2. (Foto: Ales Utouka via Canva)
Gene PAM pode influenciar tratamento do diabetes tipo 2. (Foto: Ales Utouka via Canva)

Mesmo com o avanço dos medicamentos para diabetes tipo 2, uma parcela dos pacientes não atinge o controle adequado da glicose. Um novo estudo publicado na revista Genome Medicine (2026) aponta que esse cenário pode estar ligado a fatores genéticos que afetam diretamente a ação dos medicamentos da classe agonistas do receptor GLP-1.

Essa condição, chamada de resistência ao GLP-1, sugere que o hormônio pode estar presente em níveis normais ou até elevados no organismo, mas com menor eficácia biológica na regulação da glicose.

A origem genética do problema metabólico

Os pesquisadores identificaram que variantes no gene PAM (peptidil-glicina alfa-amidante monooxigenase) podem estar no centro desse fenômeno. Esse gene codifica uma enzima essencial para ativação de hormônios metabólicos, incluindo o próprio GLP-1.

Quando essa enzima apresenta alterações, ocorre uma redução na eficiência de processos hormonais importantes. Em outras palavras, o corpo pode produzir sinais metabólicos, mas não consegue utilizá-los de forma adequada.

Essas variantes estão presentes em aproximadamente 10% da população, o que torna o achado relevante do ponto de vista clínico.

O que os estudos mostraram 

A investigação envolveu uma combinação de análises clínicas, experimentos em humanos e modelos animais, além de dados de mais de 1.100 pacientes com diabetes tipo 2.

Os principais resultados incluem:

  • Menor redução da HbA1c em portadores das variantes genéticas
  • Resposta reduzida aos medicamentos GLP-1
  • Efeito específico apenas para essa classe de medicamentos
  • Ausência de diferença em outros tratamentos como metformina e sulfonilureias

Em termos práticos, apenas cerca de 11,5% dos portadores da variante atingiram metas glicêmicas ideais, contra aproximadamente 25% dos não portadores.

Paradoxo biológico ainda em investigação

Parte dos pacientes não responde a medicamentos GLP-1. (Foto: Getty Images via Canva)
Parte dos pacientes não responde a medicamentos GLP-1. (Foto: Getty Images via Canva)

Um dos pontos mais inesperados foi que, mesmo com níveis elevados de GLP-1 circulando no sangue, os pacientes com a variante genética não apresentaram melhora proporcional no controle da glicose.

Isso indica que o problema não está na produção do hormônio, mas em etapas posteriores da sinalização metabólica, ainda não totalmente esclarecidas.

Confirmação em modelos experimentais

Em estudos com camundongos geneticamente modificados, os pesquisadores observaram padrões semelhantes de resistência ao GLP-1, incluindo:

  • Esvaziamento gástrico mais rápido
  • Resposta reduzida ao hormônio
  • Alterações na ação metabólica sem mudança no receptor

Esses achados reforçam a hipótese de que o defeito ocorre além da ligação hormonal inicial.

Caminho para a medicina personalizada

Os resultados abrem espaço para uma nova abordagem no tratamento do diabetes: a medicina de precisão. Isso significa que o perfil genético pode ajudar a prever quem terá melhor resposta a determinados medicamentos.

Além disso, o estudo sugere possíveis caminhos futuros, como:

  • Desenvolvimento de fármacos que aumentem a sensibilidade ao GLP-1
  • Uso de formulações de ação prolongada
  • Estratégias para contornar a resistência hormonal

Embora os dados sejam consistentes, o mecanismo exato da resistência ao GLP-1 ainda não foi totalmente identificado. Os pesquisadores destacam que se trata de um processo complexo, provavelmente envolvendo múltiplos fatores biológicos.

Ainda assim, o estudo publicado na Genome Medicine representa um avanço importante na compreensão das diferenças individuais na resposta ao tratamento do diabetes.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn