Dois planetas bebês são vistos se formando ao redor de estrela jovem

Imagem revela dois planetas em formação e CO2 confirma natureza de gigante gasoso (Imagem: ESO/C. Lawlor, RF van Capelleveen et al.)
Imagem revela dois planetas em formação e CO2 confirma natureza de gigante gasoso (Imagem: ESO/C. Lawlor, RF van Capelleveen et al.)

A ciência acaba de dar um passo impressionante ao registrar, com alta precisão, a formação simultânea de dois planetas jovens ao redor de uma estrela semelhante ao Sol. O sistema, conhecido como WISPIT 2, está localizado a cerca de 437 anos-luz da Terra e possui apenas 5 milhões de anos, um verdadeiro “bebê” em termos astronômicos.

Essa descoberta, detalhada no periódico The Astrophysical Journal Letters por Chloe Lawlor e colaboradores, representa uma oportunidade única de observar como sistemas planetários surgem e evoluem. Além disso, ela reforça a ideia de que estamos cada vez mais próximos de entender a origem do nosso próprio Sistema Solar. Para facilitar a compreensão, veja os principais destaques do achado:

  • Dois gigantes gasosos em formação no mesmo sistema;
  • Um deles com massa até 12 vezes maior que Júpiter;
  • Presença de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera de um dos planetas;
  • Estrutura de disco com múltiplos anéis e lacunas.

Um laboratório natural para estudar o passado do Sol

O sistema WISPIT 2 se destaca por sua semelhança com o Sol em seus estágios iniciais. Por isso, ele funciona como um verdadeiro laboratório cósmico. Os planetas detectados, chamados de WISPIT 2b e WISPIT 2c, estão imersos em um disco protoplanetário, onde gás e poeira dão origem a novos mundos.

Imagem do VLT/SPHERE mostra planeta em formação como ponto brilhante próximo à estrela mascarada (Imagem: ESO/A. Müller et al., CC BY 4.0)
Imagem do VLT/SPHERE mostra planeta em formação como ponto brilhante próximo à estrela mascarada (Imagem: ESO/A. Müller et al., CC BY 4.0)

Além disso, esses planetas ocupam regiões vazias dentro do disco, conhecidas como lacunas. Essas áreas são sinais claros de formação planetária, já que os corpos em crescimento “limpam” o material ao seu redor.

Tecnologia de ponta revela o invisível

A confirmação desses planetas só foi possível graças a instrumentos extremamente avançados, capazes de realizar observações espectroscópicas diretas. Essa técnica permite identificar a composição química e diferenciar planetas reais de simples interferências visuais.

Nesse contexto, a detecção de CO₂ foi crucial para confirmar a natureza planetária de WISPIT 2c. Além disso, os dados coletados ajudam a refinar modelos teóricos sobre como planetas gigantes se formam.

Um sistema raro  e possivelmente ainda incompleto

Até o momento, apenas outro sistema semelhante é conhecido: PDS 70, que também apresenta dois planetas em formação. No entanto, o WISPIT 2 pode ir além. Evidências indicam a presença de uma terceira lacuna no disco, sugerindo que um novo planeta pode estar surgindo.

Se confirmado, isso reforçaria a ideia de que sistemas planetários se formam de maneira dinâmica e complexa, com múltiplos corpos surgindo quase simultaneamente.

Essas observações marcam uma nova era na astrofísica. Com telescópios cada vez mais poderosos, como os que estão em desenvolvimento, será possível observar diretamente a formação de sistemas completos.

Dessa forma, o estudo do sistema WISPIT 2 não apenas amplia nosso conhecimento sobre exoplanetas, mas também aproxima a ciência de responder uma das maiores perguntas da humanidade: como surgem mundos como o nosso.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes