Estudo sugere associação entre laticínios integrais e demência

Estudo de longo prazo avalia laticínios e demência. (Foto: Getty Images via Canva)
Estudo de longo prazo avalia laticínios e demência. (Foto: Getty Images via Canva)

Por décadas, o consumo de laticínios integrais foi visto com ressalvas por diretrizes nutricionais voltadas à saúde cardiovascular. No entanto, um amplo estudo de longo prazo trouxe um achado inesperado: adultos que consumiam mais queijo integral e creme de leite apresentaram menor risco de demência, especialmente quando não possuíam predisposição genética conhecida para a doença de Alzheimer.

A pesquisa acompanhou 27.670 pessoas ao longo de 25 anos e foi publicada na revista científica Neurology. O estudo, intitulado High- and Low-Fat Dairy Consumption and Long-Term Risk of Dementia, teve como autor principal Yufeng Du, com publicação em 2026 (DOI: 10.1212/WNL.000000000214343).

O que os pesquisadores observaram ao longo do tempo

Durante o período de acompanhamento, 3.208 participantes desenvolveram algum tipo de demência. Entre os indivíduos sem risco genético conhecido para Alzheimer, o consumo diário de mais de 50 gramas de queijo integral esteve associado a uma redução entre 13% e 17% no risco da doença. Esse efeito não foi observado entre participantes com predisposição genética.

Já o consumo de mais de 20 gramas diárias de creme de leite integral foi associado a uma redução de 16% a 24% no risco de demência em geral. Em contrapartida, não foram encontradas associações significativas para leite integral ou desnatado, produtos fermentados ou versões com baixo teor de gordura.

Por que esses resultados desafiam recomendações antigas

As descobertas chamam atenção porque, historicamente, as recomendações de saúde pública priorizam laticínios com baixo teor de gordura. Isso ocorre porque doenças cardiovasculares e demência compartilham fatores de risco, como hipertensão, diabetes e obesidade.

Entretanto, evidências mais recentes indicam que laticínios integrais não aumentam necessariamente o risco cardiovascular e que o queijo pode até estar associado a menor incidência de doenças cardíacas. Quando o foco é saúde cerebral, porém, os resultados ainda são inconsistentes.

Diferenças culturais ajudam a explicar achados variados

Estudos realizados em populações asiáticas tendem a encontrar associações mais favoráveis entre consumo de laticínios e cognição, enquanto muitos estudos europeus não observam o mesmo padrão. Uma possível explicação é o menor consumo médio de laticínios nesses países, o que pode tornar efeitos moderados mais perceptíveis.

Um exemplo é um estudo finlandês que acompanhou homens de meia-idade por 22 anos e encontrou uma redução de 28% no risco de demência associada ao consumo de queijo, reforçando que o contexto alimentar e cultural importa.

O papel da dieta como um todo

No estudo sueco, os participantes que consumiam mais queijo e creme de leite também apresentavam:

  • Maior escolaridade
  • Menor prevalência de obesidade
  • Menores taxas de doenças cardiovasculares e metabólicas

Esses fatores, de forma independente, já reduzem o risco de demência. Além disso, padrões alimentares saudáveis, como a dieta mediterrânea, incluem queijo em quantidades moderadas, sempre acompanhado de peixes, frutas, vegetais e grãos integrais.

O que as evidências permitem concluir

O queijo integral fornece nutrientes importantes para o cérebro, como vitaminas A, D, K2 e B12, além de iodo, zinco e selênio. Ainda assim, os dados não justificam aumentar o consumo de queijo ou creme como estratégia preventiva.

A principal mensagem da ciência permanece consistente: equilíbrio alimentar, moderação e estilo de vida saudável têm impacto muito maior na saúde cerebral do que qualquer alimento isolado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn