Por que a canja de galinha da vovó tem poder medicinal real contra o resfriado?

Canja atua no conforto e resposta inflamatória respiratória. (Foto: Robert Popa's Images via Canva)
Canja atua no conforto e resposta inflamatória respiratória. (Foto: Robert Popa's Images via Canva)

Durante gerações, a canja de galinha foi indicada como “remédio caseiro” para gripes e resfriados. Para muitos, parecia apenas uma tradição afetiva. No entanto, a ciência decidiu investigar essa receita simples em laboratório e encontrou efeitos bioquímicos reais capazes de modular a inflamação respiratória.

O mais interessante é que o impacto não vem de um único “ingrediente mágico”, mas da combinação entre caldo quente, aminoácidos, minerais e compostos bioativos liberados no cozimento.

O que acontece no nariz durante o resfriado

Quando um vírus respiratório entra no organismo, o sistema imunológico ativa uma resposta intensa. Um dos principais eventos é a chegada dos neutrófilos, células de defesa que migram rapidamente para o local da infecção.

Essas células fazem parte da resposta inflamatória, mas em excesso acabam contribuindo para sintomas como:

  • Congestão nasal
  • Coriza intensa
  • Dor facial
  • Sensação de mal-estar

Ou seja, parte do desconforto não vem apenas do vírus, mas da própria resposta do corpo.

O experimento que colocou a canja no laboratório

Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado na revista Chest, conduzido por Stephen Rennard e colaboradores, na Universidade de Nebraska.

Nesse experimento, pesquisadores testaram amostras de canja de galinha tradicional em laboratório, avaliando seu efeito sobre a atividade dos neutrófilos.

O resultado foi surpreendente: o caldo demonstrou capacidade de inibir a quimiotaxia dos neutrófilos, ou seja, reduziu a movimentação dessas células em direção ao foco inflamatório.

Na prática, isso sugere uma possível modulação da resposta inflamatória, o que pode contribuir para menor intensidade dos sintomas nas vias respiratórias.

O papel dos aminoácidos no efeito descongestionante

Outro ponto importante está na composição química da canja.

Durante o cozimento do frango, ocorre liberação de aminoácidos, especialmente a cisteína. Essa substância possui estrutura semelhante à da N-acetilcisteína (NAC), um medicamento utilizado como mucolítico, que ajuda a fluidificar o muco respiratório.

Isso não significa que a canja tenha o mesmo efeito de um fármaco, mas sugere um possível mecanismo complementar que ajuda a explicar a sensação de alívio respiratório após o consumo.

Além disso, o caldo quente contribui para:

  • Hidratação das secreções
  • Sensação de alívio nas vias aéreas
  • Aumento do conforto térmico
  • Facilidade na deglutição durante infecções

O calor também tem papel terapêutico

O efeito térmico da canja não deve ser subestimado. Líquidos quentes ajudam a fluidificar o muco e podem melhorar temporariamente a sensação de obstrução nasal.

Além disso, refeições quentes tendem a estimular o bem-estar geral, o que pode influenciar positivamente a percepção dos sintomas durante o quadro viral.

Existe evidência nova sobre canja?

Até o momento, não existem grandes ensaios clínicos recentes de alta escala publicados especificamente neste ano sobre canja de galinha e resfriado. O que a literatura atual mantém é principalmente a base experimental clássica, como o estudo da Chest, e revisões gerais sobre alimentação, hidratação e sintomas de infecções respiratórias leves.

Isso não diminui o valor da evidência existente, mas indica que o efeito observado ainda é considerado modesto e complementar, não substituindo tratamentos médicos quando necessários.

Muito mais que tradição

A canja de galinha não é uma cura para infecções virais. No entanto, a ciência mostra que ela pode atuar como um suporte fisiológico real, combinando leve ação anti-inflamatória, hidratação e efeito mucolítico indireto.

Em outras palavras, o “remédio da vovó” não é apenas conforto emocional. Ele representa um exemplo interessante de como alimentos simples podem interagir com processos biológicos complexos do organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn