Dieta na adolescência pode mudar o cérebro de forma permanente

Dieta na adolescência pode moldar decisões futuras. (Foto: Getty Images via Canva)
Dieta na adolescência pode moldar decisões futuras. (Foto: Getty Images via Canva)

A adolescência é uma fase de grandes mudanças no corpo e no cérebro. Mas o que este estudo sugere vai além do desenvolvimento comum: a alimentação nesse período pode deixar marcas duradouras no jeito de tomar decisões na vida adulta.

A pesquisa publicada na revista Neuropsychopharmacology (2026), conduzida por Diptendu Mukherjee, analisou como dietas ricas em gordura durante a adolescência podem influenciar o comportamento mais tarde, mesmo após a volta para uma alimentação saudável.

O cérebro aprende a comer de forma automática?

Os cientistas observaram algo importante: o cérebro possui dois sistemas de controle do comportamento alimentar.

  • Um sistema mais consciente e flexível, que ajusta escolhas com base no valor do alimento
  • Outro mais automático e habitual, que repete comportamentos sem pensar muito nas consequências

O problema é que dietas muito gordurosas na adolescência podem empurrar o cérebro para o modo mais automático.

Como o estudo foi realizado

Para entender esse processo, os pesquisadores expuseram camundongos adolescentes a diferentes dietas:

  • Dieta padrão
  • Dieta rica em gordura (45%)
  • Dieta muito rica em gordura (60%)

Depois disso, todos voltaram a uma alimentação normal, simulando o que acontece quando hábitos alimentares mudam na vida real.

Mesmo assim, os efeitos permaneceram na fase adulta.

O que mudou no comportamento depois da dieta

Cérebro pode ficar mais “automático” com dieta rica em gordura. (Foto: Citeprojects via Canva)
Cérebro pode ficar mais “automático” com dieta rica em gordura. (Foto: Citeprojects via Canva)

Os resultados mostraram algo consistente: a alimentação na adolescência alterou a forma como o cérebro controla decisões.

Entre os principais efeitos observados:

  • Maior tendência a comportamentos automáticos relacionados à comida
  • Menor flexibilidade para mudar hábitos alimentares
  • Dificuldade em ajustar decisões com base em novas informações

Ou seja, o cérebro passou a “repetir padrões” com mais facilidade.

Diferenças importantes entre machos e fêmeas

Um ponto central do estudo foi que os efeitos não foram iguais entre os sexos.

  • Em machos, certas dietas afetaram mais o uso do valor da recompensa alimentar
  • Em fêmeas, o impacto apareceu mais na forma de entender as relações entre ação e resultado

Além disso, a dieta mais gordurosa teve efeitos mais amplos em ambos os sexos, enquanto a dieta intermediária causou alterações mais específicas.

Hábito substitui a escolha consciente

O estudo mostrou que dietas obesogênicas podem favorecer o chamado comportamento habitual, ou seja:

  • Comer sem pensar muito
  • Repetir escolhas alimentares automaticamente
  • Menor sensibilidade a mudanças no valor do alimento

Na prática, isso pode ajudar a explicar por que algumas pessoas têm mais dificuldade em mudar hábitos alimentares mesmo após tentativas de dieta.

O impacto não ficou só no corpo, mas também no cérebro

Outro ponto importante é que esses efeitos aconteceram mesmo depois de os animais voltarem a uma alimentação saudável.

Isso sugere que o período da adolescência pode ser uma fase crítica em que o cérebro ainda está “programando” como vai lidar com decisões futuras.

O que isso significa na vida real?

Embora o estudo tenha sido feito em animais, ele levanta alertas importantes para a saúde humana:

  • A adolescência pode ser uma fase sensível para formação de hábitos alimentares
  • Dietas muito ricas em gordura podem influenciar decisões futuras
  • Mudanças no cérebro podem persistir mesmo após melhora da alimentação

Portanto, a alimentação na adolescência não afeta apenas o corpo, mas também pode moldar a forma como o cérebro toma decisões na vida adulta.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn