Uma análise científica de longa duração trouxe uma nova perspectiva sobre a saúde de trabalhadores do transporte urbano. Ao acompanhar mais de 117 mil funcionários da Transport for London (TfL) ao longo de cinco décadas, pesquisadores identificaram diferenças relevantes nos padrões de mortalidade entre diferentes funções.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports (Mak et al., 2026), analisou dados entre 1960 e 2021 e revelou que profissionais expostos ao ambiente operacional de ônibus e metrô apresentaram maiores riscos de mortalidade quando comparados a trabalhadores administrativos.
Ambiente de trabalho pode pesar na saúde
Os resultados mostraram um padrão consistente: funções ligadas diretamente ao transporte público estiveram associadas a piores desfechos de saúde.
Entre os principais achados, destacam se:
- Mortalidade geral mais elevada em trabalhadores de ônibus e metrô
- Maior risco de doenças respiratórias
- Aumento de eventos cardiovasculares
- Risco significativamente maior de câncer de pulmão
Em termos comparativos, trabalhadores do metrô apresentaram cerca de 23 por cento mais risco de morte geral, enquanto motoristas de ônibus tiveram aumento de aproximadamente 17 por cento, em relação ao grupo administrativo.
O papel invisível da poluição e do estresse diário
Embora o estudo não tenha identificado uma causa única, ele levanta hipóteses importantes relacionadas ao ambiente ocupacional.
Entre os fatores investigados estão:
- Exposição contínua à poluição do ar em túneis e ruas urbanas
- Presença de material particulado gerado pelo desgaste de veículos e trilhos
- Turnos irregulares e estresse crônico
- Longos períodos em posição sedentária
Essas condições podem atuar de forma combinada, impactando lentamente a saúde ao longo dos anos.
Do pulmão ao coração: os impactos mais evidentes

Os dados chamam atenção especialmente para causas específicas de morte.
Os trabalhadores de transporte apresentaram:
- 73% mais risco de mortalidade respiratória no metrô
- 44% mais risco respiratório em motoristas de ônibus
- Até 51% mais risco cardiovascular em trabalhadores do metrô
- Mais que o dobro de risco de câncer de pulmão em algumas funções
Esses números sugerem uma possível relação entre exposição ocupacional e doenças crônicas, ainda que sem comprovação causal direta.
O que ainda não se sabe com certeza
Apesar da robustez dos dados, o estudo apresenta limitações importantes.
Entre elas:
- Falta de informações sobre tabagismo e álcool
- Ausência de dados completos sobre condições socioeconômicas
- Registros antigos com informações incompletas de causa de morte
- Amplas categorias profissionais, que podem diluir diferenças individuais
Por isso, os resultados indicam associação, mas não estabelecem causalidade direta.
O que esse estudo muda na prática
Mesmo com limitações, a pesquisa publicada em Scientific Reports (Mak et al., 2026) reforça um ponto essencial: o ambiente de trabalho pode ter impacto acumulativo na saúde ao longo das décadas.
Isso levanta discussões importantes sobre:
- Qualidade do ar em sistemas de transporte
- Monitoramento contínuo da saúde ocupacional
- Melhorias em condições de trabalho em ambientes urbanos fechados
A análise de 50 anos sugere que trabalhadores do transporte público, especialmente ônibus e metrô, podem enfrentar riscos maiores de doenças graves quando comparados a funções administrativas.
Embora ainda sejam necessários mais estudos para entender os mecanismos exatos, os dados reforçam a importância de olhar com atenção para a saúde ocupacional em ambientes urbanos de alta exposição.

