Grão-de-bico cresce em solo lunar simulado e pode alimentar astronautas no futuro

Grão-de-bico cresce em solo lunar simulado em novo experimento científico (Imagem: Stefanut Sava's Images (à esquerda) e Getty Images (à direita) via Canva)
Grão-de-bico cresce em solo lunar simulado em novo experimento científico (Imagem: Stefanut Sava's Images (à esquerda) e Getty Images (à direita) via Canva)

A ideia de cultivar alimentos fora da Terra deixou de ser apenas ficção científica e começa a ganhar base científica. Pesquisadores demonstraram que o grão-de-bico pode crescer em um solo que imita as condições da superfície lunar. O resultado representa um avanço importante para missões espaciais de longa duração, nas quais produzir alimentos localmente poderá ser essencial para a sobrevivência dos astronautas.

O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade do Texas em Austin em colaboração com pesquisadores da Texas A&M University, e os resultados foram publicados na revista científica Scientific Reports. O trabalho foi liderado por Jessica Atkin e Sara Oliveira Santos e investigou maneiras de transformar o regolito lunar, a poeira mineral que cobre a Lua, em um ambiente capaz de sustentar plantas. Entre os principais resultados do experimento, destacam-se:

  • Grão-de-bico conseguiu germinar e produzir colheita em solo lunar simulado;
  • O crescimento ocorreu quando o material foi misturado com vermicomposto, produzido por minhocas;
  • Fungos micorrízicos ajudaram a proteger as plantas contra metais tóxicos;
  • Plantas sobreviveram melhor em misturas contendo até 75% de regolito lunar simulado.

Essas descobertas indicam que, com os ajustes certos, a agricultura pode ser viável fora da Terra.

O desafio de cultivar plantas no solo hostil da Lua

O regolito lunar apresenta características muito diferentes do solo terrestre. Ele é formado basicamente por partículas minerais resultantes de bilhões de anos de impactos de meteoritos. Por isso, carece de elementos fundamentais para o desenvolvimento vegetal, como matéria orgânica e microrganismos.

Além disso, o regolito pode conter metais potencialmente tóxicos que prejudicam o crescimento das plantas. Para reproduzir essas condições em laboratório, os cientistas utilizaram um material criado pela Exolith Lab, desenvolvido para imitar a composição das amostras lunares coletadas durante as missões do programa Apollo. A partir desse simulante, os pesquisadores começaram a testar formas de torná-lo biologicamente ativo.

Minhocas e fungos como aliados da agricultura espacial

Micorrizas ampliam raízes do grão-de-bico e reduzem metais tóxicos (Imagem: Atkin, J., Pierson, E., Gentry, T. et al./ Scientific Reports/ CC BY-SA 4.0)
Micorrizas ampliam raízes do grão-de-bico e reduzem metais tóxicos (Imagem: Atkin, J., Pierson, E., Gentry, T. et al./ Scientific Reports/ CC BY-SA 4.0)

Para melhorar o ambiente de cultivo, os cientistas recorreram a um recurso simples e eficiente: vermicomposto, um fertilizante natural produzido por minhocas vermelhas californianas. Esse material contém nutrientes essenciais e um microbioma diversificado que favorece o desenvolvimento das plantas.

Além disso, as sementes de grão-de-bico foram tratadas com fungos micorrízicos arbusculares, organismos capazes de formar uma parceria biológica com as raízes das plantas. Esses fungos aumentam a absorção de nutrientes e ajudam a reduzir a entrada de metais pesados no organismo vegetal.

Em um cenário real de exploração espacial, as minhocas poderiam transformar resíduos orgânicos da tripulação, como restos de alimentos ou tecidos naturais, em fertilizante, criando um ciclo sustentável de nutrientes dentro de bases lunares.

Agricultura espacial ainda precisa responder perguntas importantes

Apesar do sucesso do experimento, os pesquisadores destacam que a agricultura lunar ainda enfrenta desafios científicos relevantes. O principal deles é entender se as plantas cultivadas nesse ambiente absorvem metais tóxicos e se os alimentos produzidos seriam realmente seguros para consumo humano.

Outro ponto crucial envolve a qualidade nutricional dessas plantas. Cientistas ainda investigam se culturas cultivadas em solo lunar modificado manteriam níveis adequados de proteínas, vitaminas e minerais necessários para a dieta de astronautas.

Mesmo assim, o estudo representa um passo significativo rumo a sistemas agrícolas capazes de sustentar missões humanas prolongadas na Lua. À medida que programas espaciais, como o Artemis, avançam em direção a uma presença humana mais duradoura no satélite natural da Terra, pesquisas desse tipo se tornam cada vez mais essenciais. Se confirmados em condições reais, experimentos como esse podem transformar o grão-de-bico em um dos primeiros alimentos cultivados fora do planeta.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes