A cannabis é frequentemente associada a lapsos de memória temporários. No entanto, evidências recentes sugerem que o impacto pode ser mais profundo. Um estudo científico indica que o THC, principal composto psicoativo da planta, pode não apenas prejudicar a recordação de informações, mas também induzir lembranças que nunca ocorreram.
A pesquisa foi publicada na revista científica Journal of Psychopharmacology em 2026 e investigou como o consumo agudo de cannabis influencia diferentes sistemas de memória utilizados no dia a dia.
Avaliação detalhada de vários tipos de memória
Para compreender melhor os efeitos cognitivos da substância, pesquisadores conduziram um experimento com 120 usuários habituais de cannabis. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos:
• consumo de placebo
• 20 miligramas de THC
• 40 miligramas de THC
O estudo foi realizado em modelo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, metodologia considerada robusta para avaliar efeitos de substâncias.
Após a administração da substância, os voluntários passaram cerca de uma hora realizando uma série de testes cognitivos. As avaliações investigaram diversos tipos de memória relevantes para a vida cotidiana, incluindo:
• memória verbal
• memória visuoespacial
• memória prospectiva
• memória de fonte
• memória episódica
• memória temporal
• memória falsa
Os resultados mostraram que os participantes que consumiram cannabis apresentaram desempenho inferior em grande parte das tarefas. Entre os 21 testes aplicados, diferenças significativas apareceram em 15 avaliações.
Cérebro cria lembranças que não existiram
Um dos achados mais marcantes do estudo foi o aumento da chamada memória falsa. Esse fenômeno ocorre quando o cérebro registra como real uma informação que nunca foi apresentada.
Em um dos experimentos, os participantes ouviram listas de palavras relacionadas entre si por um tema específico. Entretanto, a palavra central que conectava os termos não foi mencionada. Posteriormente, indivíduos que haviam consumido THC demonstraram maior tendência a afirmar que lembravam de palavras que não estavam na lista.
Esse tipo de distorção sugere que o THC pode interferir na forma como o cérebro organiza e reconstrói lembranças, aumentando a probabilidade de erros na recordação.
Confusão sobre a origem das informações
Além de gerar falsas lembranças, o consumo de cannabis também afetou a chamada memória de fonte. Esse sistema cognitivo permite identificar de onde veio determinada informação, como uma conversa, um livro ou uma publicação online.
Quando essa função falha, torna-se mais difícil distinguir se algo foi realmente vivenciado ou apenas ouvido de outra pessoa. Em contextos específicos, como depoimentos de testemunhas ou decisões importantes, esse tipo de confusão pode ter implicações relevantes.
Impactos nas tarefas do cotidiano
Outro efeito observado foi a redução da memória prospectiva, responsável por lembrar tarefas planejadas para o futuro. Esse mecanismo cognitivo está envolvido em atividades simples do dia a dia, como:
• lembrar de tomar medicamentos
• comparecer a compromissos
• realizar tarefas pendentes
• parar em um local específico durante um trajeto
Quando essa função é prejudicada, atividades rotineiras podem se tornar mais difíceis de executar.
Nem todos os tipos de memória foram igualmente afetados
Curiosamente, um tipo específico de memória chamado memória episódica de conteúdo, que envolve a recordação de experiências pessoais, não apresentou alterações significativas no estudo. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que novas investigações serão necessárias para confirmar esse resultado.
Uso crescente e lacunas no conhecimento científico
O interesse por pesquisas sobre cannabis tem aumentado à medida que o consumo da substância se torna mais comum em várias regiões do mundo. Apesar disso, muitos efeitos cognitivos de curto prazo ainda não são completamente compreendidos.
Os resultados publicados no Journal of Psychopharmacology indicam que o THC pode afetar múltiplos sistemas de memória simultaneamente, o que amplia a compreensão sobre como a substância influencia o funcionamento do cérebro.
Com mais estudos, cientistas esperam esclarecer melhor os riscos cognitivos associados ao uso de cannabis, permitindo decisões mais informadas sobre seus efeitos no organismo.
*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).

