O câncer de mama continua sendo um dos maiores desafios da saúde feminina no mundo. Embora avanços na medicina tenham ampliado as possibilidades de diagnóstico e tratamento, projeções científicas indicam que o número de casos deve crescer nas próximas décadas. Além disso, o impacto da doença não ocorre da mesma forma em todos os países, revelando diferenças importantes na capacidade de prevenção e cuidado.
Uma análise científica publicada na revista The Lancet, intitulada The global, regional, and national burden of cancer, 1990–2023, with forecasts to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023, conduzida pelos GBD 2023 Cancer Collaborators, apresenta um panorama detalhado da evolução do câncer no mundo. O estudo foi publicado eletronicamente em 24 de setembro de 2025 e reúne dados epidemiológicos de 204 países (DOI: 10.1016/S0140-6736(25)01635-6).
Segundo as projeções, os casos anuais de câncer de mama podem passar de aproximadamente 2,3 milhões em 2023 para cerca de 3,5 milhões até 2050. Paralelamente, o número de mortes associadas à doença pode aumentar cerca de 44%, chegando a aproximadamente 1,4 milhão por ano.
Esse crescimento reforça a necessidade de estratégias globais mais eficazes para reduzir o impacto da doença nas próximas décadas.
Desigualdade global no combate ao câncer de mama
Apesar de o câncer de mama ser uma condição presente em praticamente todos os países, os resultados no controle da doença variam de forma significativa.
Nas últimas três décadas, países de alta renda conseguiram reduzir quase 30% da taxa padronizada de mortalidade relacionada ao câncer de mama. Esse progresso está associado principalmente à expansão de programas de rastreamento, diagnóstico precoce e acesso a tratamentos mais avançados.
Por outro lado, nações de baixa renda enfrentam uma realidade diferente. No mesmo período, a taxa de mortalidade praticamente dobrou, evidenciando desafios estruturais nos sistemas de saúde.
Entre os fatores que ajudam a explicar essa diferença estão:
- acesso limitado a exames de rastreamento
- diagnóstico tardio em muitos casos
- dificuldades no acesso a tratamentos especializados
- menor disponibilidade de infraestrutura médica
Como consequência, o local onde a mulher vive pode influenciar significativamente suas chances de sobrevivência à doença.
A carga invisível do câncer de mama
Além do número de casos e mortes, os pesquisadores analisaram o impacto do câncer de mama na qualidade de vida das populações.
Um indicador importante utilizado no estudo é o de anos de vida saudável perdidos, que combina mortalidade precoce e incapacidade causada pela doença.
Embora países de baixa e média renda concentrem cerca de 27% dos novos diagnósticos, essas regiões respondem por mais de 45% dos anos de vida saudável perdidos globalmente devido ao câncer de mama.
Esse dado evidencia que, nessas regiões, a doença tende a causar impacto mais severo, muitas vezes devido ao diagnóstico em estágios mais avançados e à limitação de acesso ao tratamento.
Crescimento da doença entre mulheres mais jovens
Outro aspecto que chama atenção nas análises é a mudança no perfil etário da doença.
Desde 1990, houve aumento de cerca de 29% na incidência de câncer de mama entre mulheres de 20 a 54 anos. Em contraste, entre mulheres com 55 anos ou mais, a incidência permaneceu relativamente estável.
Diversos fatores podem estar associados a essa tendência, incluindo:
- mudanças nos padrões reprodutivos
- aumento da obesidade
- alterações metabólicas
- maior capacidade de detecção precoce
Essas mudanças sugerem que o acompanhamento da doença pode precisar considerar novos perfis de risco nas populações femininas.
Fatores de risco que podem ser prevenidos
O estudo também destaca que uma parcela importante da carga global do câncer de mama está associada a fatores de risco modificáveis.
Estima-se que cerca de 28% dos anos de vida saudável perdidos estejam ligados a seis fatores principais:
- consumo elevado de carne vermelha
- tabagismo
- glicemia elevada
- obesidade
- consumo de álcool
- sedentarismo
Embora a redução desses fatores possa diminuir parte do impacto da doença, especialistas apontam que estratégias preventivas isoladas não são suficientes, já que milhões de mulheres continuarão desenvolvendo câncer de mama ao longo das próximas décadas.
Situação do câncer de mama no Brasil
No Brasil, os dados indicam um cenário intermediário no panorama global. Entre 1990 e 2023, a taxa padronizada de incidência aumentou cerca de 43%, enquanto a taxa de mortalidade permaneceu praticamente estável, com variação próxima de 2,6%.
Somente em 2023, o país registrou aproximadamente:
- 62,3 mil novos casos de câncer de mama
- 23,9 mil mortes associadas à doença
Apesar dos avanços no diagnóstico, o país ainda enfrenta desafios para transformar a detecção em redução consistente da mortalidade, especialmente devido às desigualdades regionais no acesso ao tratamento.
O desafio para as próximas décadas
As projeções indicam que muitos países podem ter dificuldade para alcançar a meta da Organização Mundial da Saúde, que prevê redução anual de 2,5% na mortalidade por câncer de mama até 2040.
Diante desse cenário, especialistas destacam que enfrentar o crescimento da doença exigirá estratégias combinadas, como:
- ampliação do rastreamento populacional
- diagnóstico precoce e tratamento rápido
- políticas de prevenção e promoção da saúde
- redução das desigualdades nos sistemas de saúde
Assim, o futuro do câncer de mama dependerá não apenas de avanços científicos, mas também da capacidade dos sistemas de saúde de garantir acesso equitativo ao diagnóstico e tratamento, independentemente da região onde a mulher vive.
Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação por profissional de saúde. Por: Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ:13912).

