Chip implantado na retina devolve visão a pacientes cegos

Retina de um participante após o implante. (Foto: Science Corporation)
Retina de um participante após o implante. (Foto: Science Corporation)

A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é uma das principais causas de cegueira permanente em adultos, afetando milhões globalmente. Recentemente, um implante de retina sem fio, chamado PRIMA, demonstrou restaurar a visão central em pacientes com atrofia geográfica, a forma avançada da DMRI. O dispositivo está revolucionando o tratamento e abrindo caminhos para recuperar a leitura e atividades diárias que antes eram impossíveis.

Resultados clínicos promissores

O ensaio clínico internacional, publicado no New England Journal of Medicine (Frank G. Holz et al., 2026; DOI: 10.1056/NEJMoa2501396), acompanhou 32 pacientes durante um ano. Os achados foram impressionantes:

  • 81% apresentaram aumento significativo da acuidade visual
  • 84% relataram utilizar o implante em casa para ler números e palavras
  • Em média, cada paciente ganhou 25 letras em tabelas optométricas, equivalente a cinco linhas

Além disso, alguns participantes conseguiram ler páginas completas de livros, mostrando que o implante oferece funcionalidade prática e imediata.

Como funciona o implante PRIMA

Com a DMRI, os fotorreceptores da retina são danificados, comprometendo a visão central. O PRIMA substitui esses fotorreceptores por um chip sem fio de 2×2 mm que:

  • Recebe imagens captadas por uma câmera acoplada a óculos especiais
  • Transmite sinais em luz infravermelha invisível para o implante
  • Converte esses sinais em impulsos elétricos, estimulando as células remanescentes da retina
  • Permite ajustes de contraste e zoom, aprimorando a percepção visual

Dessa forma, o cérebro volta a interpretar informações visuais, mesmo após danos permanentes à retina.

Estudo internacional e segurança

O estudo PRIMAvera incluiu 38 participantes acima de 60 anos em 17 centros na Europa: França, Alemanha, Itália, Holanda e Reino Unido. Após 12 meses de acompanhamento:

  • Todos os efeitos adversos relacionados ao procedimento desapareceram
  • Participantes relataram melhorias consistentes na leitura de letras
  • Um indivíduo recuperou 59 letras, equivalente a 12 linhas de visão

Embora o implante não restitua a visão completa de 20/20, ele eleva pacientes acima do limite da cegueira legal, oferecendo autonomia e qualidade de vida.

Próximos passos e regulamentação

A fabricante Science Corporation já submeteu pedidos de aprovação para uso clínico na Europa e nos EUA. O dispositivo foi implantado nos EUA em 2020, em estudos conduzidos por Joseph Martel, MD, na Universidade de Pittsburgh, com base na pesquisa de Daniel Palanker, Ph.D., e José-Alain Sahel, MD. Outros centros europeus participantes incluíram universidades e hospitais renomados em Paris, Bonn, Londres e Roma.

O sucesso do estudo indica que a tecnologia de retina sem fio pode se tornar uma alternativa viável e segura para milhões de pessoas afetadas pela DMRI, transformando a vida de pacientes que antes não tinham esperança de recuperar a visão.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn