Lesão nervosa pode provocar inflamação silenciosa no corpo inteiro

Lesão nervosa pode gerar inflamação sistêmica. (Foto: Photo Library via Canva)
Lesão nervosa pode gerar inflamação sistêmica. (Foto: Photo Library via Canva)

Uma lesão nervosa costuma ser associada à dor persistente ou à perda de sensibilidade. No entanto, evidências recentes indicam que o problema pode ir muito além do local afetado. De forma silenciosa, o organismo pode desenvolver uma inflamação sistêmica, alterando o funcionamento do sistema imunológico por períodos prolongados.

Essa é a principal conclusão do estudo The impact of nerve injury on the immune system across the lifespan exhibits sexual dimorphism, publicado em 2025 na revista Neurobiology of Pain, liderado por Wen Bo S. Zhou e colaboradores (DOI: 10.1016/j.ynpai.2025.100195).

O que acontece no corpo após uma lesão nervosa

Quando um nervo é comprimido, cortado ou estirado, o corpo ativa mecanismos de reparo. Tradicionalmente, acreditava-se que essa resposta ficava restrita à área lesionada. Contudo, os novos dados mostram que a reação pode alcançar todo o organismo.

Em modelos experimentais, análises laboratoriais identificaram sinais de inflamação generalizada no sangue após o dano neural. Isso indica que substâncias inflamatórias passam a circular pelo corpo, mesmo quando a lesão é localizada.

Além disso, a transferência de sangue de indivíduos lesionados para indivíduos saudáveis foi suficiente para aumentar a sensibilidade à dor. Esse achado sugere que fatores presentes na corrente sanguínea contribuem para amplificar ou perpetuar a dor neuropática.

Homens e mulheres respondem de forma diferente

Um dos aspectos mais relevantes do estudo foi a identificação de diferenças biológicas entre os sexos.

Os pesquisadores observaram que:

• Em machos, os marcadores inflamatórios permaneceram elevados de forma persistente
• Em fêmeas, esses mesmos marcadores não apresentaram aumento significativo
• Apesar disso, ambos desenvolveram maior sensibilidade à dor

Esses resultados indicam que a inflamação silenciosa pode seguir vias distintas em homens e mulheres. Portanto, embora o sintoma final seja semelhante, os mecanismos que o sustentam podem ser diferentes.

Essa constatação reforça a necessidade de abordagens baseadas em medicina personalizada, especialmente no manejo da dor crônica.

Consequências além da dor

A interação entre o sistema nervoso e o sistema imunológico é profunda e contínua. Quando ocorre um desequilíbrio prolongado, o risco de complicações aumenta.

A inflamação sistêmica persistente pode estar associada a:

• Maior probabilidade de dor crônica
• Sensibilização central
• Alterações emocionais, como ansiedade
• Sintomas depressivos

Assim, uma lesão nervosa pode representar um gatilho para mudanças mais amplas no organismo, afetando não apenas a percepção de dor, mas também o bem-estar geral.

O que isso muda na prática

Compreender que a lesão nervosa pode provocar uma inflamação silenciosa no corpo inteiro amplia a visão clínica sobre o problema. Em vez de tratar apenas o local da lesão, torna-se essencial considerar o impacto sistêmico.

Além disso, reconhecer que homens e mulheres apresentam respostas imunológicas diferentes pode orientar o desenvolvimento de terapias mais específicas e eficazes.

Em síntese, a dor pode ser apenas a ponta do iceberg. Por trás dela, podem existir alterações imunológicas discretas, porém duradouras, que exigem atenção tanto na pesquisa quanto na prática clínica.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn