As ondas de calor extremas podem estar desencadeando um processo químico surpreendente na atmosfera. Um estudo publicado na Science demonstrou que temperaturas próximas de 40 °C favorecem a formação de nanopartículas orgânicas ultrafinas, contrariando previsões teóricas consolidadas nas últimas décadas.
Até então, acreditava-se que temperaturas elevadas dificultariam a condensação de gases atmosféricos, impedindo a formação de novas partículas. Contudo, medições realizadas durante um período de calor intenso no Texas mostraram eventos frequentes de formação de novas partículas (NPF), revelando uma dinâmica atmosférica mais complexa do que se imaginava. Os pesquisadores identificaram que:
- A radiação solar intensa acelera reações fotoquímicas;
- Compostos orgânicos voláteis se convertem em ácidos orgânicos altamente reativos;
- Essas moléculas passam por auto-organização molecular, unindo-se espontaneamente;
- Surgem partículas com cerca de 3 nanômetros, invisíveis a olho nu.
Calor extremo pode ativar ciclo invisível que intensifica o aquecimento global
As análises indicaram que os principais blocos formadores dessas partículas são ácidos carboxílicos multifuncionais e, à medida que crescem, outros compostos passam a integrar sua estrutura, aumentando sua complexidade química. Os aerossóis atmosféricos desempenham papel crucial no equilíbrio térmico do planeta, pois ajudam a refletir parte da radiação solar e contribuem para a formação de nuvens responsáveis por resfriar a superfície.
No entanto, as nanopartículas identificadas durante a onda de calor apresentaram baixa higroscopicidade, ou seja, pouca capacidade de atrair água. Como consequência, tornam-se ineficientes na formação de nuvens. Com menor cobertura de nuvens, uma quantidade maior de radiação solar atinge o solo, intensificando o aquecimento.
Esse processo pode gerar um ciclo de retroalimentação climática, no qual o calor extremo acelera reações químicas atmosféricas, promove a formação de mais nanopartículas orgânicas, reduz o resfriamento natural e, por fim, reforça o aumento da temperatura. Dessa forma, o mecanismo identificado surge como uma variável potencialmente relevante para os modelos climáticos globais, especialmente em um cenário de aquecimento contínuo.
Riscos potenciais à saúde pública
Além das implicações ambientais, partículas com menos de 50 nanômetros preocupam especialistas em saúde. Devido ao tamanho reduzido, podem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar outros tecidos do corpo. Evidências associam essa exposição a inflamação sistêmica, estresse oxidativo e maior risco cardiovascular.
Portanto, compreender como o calor extremo altera a química do ar torna-se fundamental não apenas para aprimorar previsões climáticas, mas também para orientar estratégias de vigilância ambiental e proteção da saúde.

