Vale gigante em Marte fortalece hipótese de antigo oceano no planeta

Imagem da Mars Express revela terreno caótico em Shalbatana Vallis, próximo ao equador marciano. (Imagem: ESA/DLR/FU Berlin)
Imagem da Mars Express revela terreno caótico em Shalbatana Vallis, próximo ao equador marciano. (Imagem: ESA/DLR/FU Berlin)

Marte pode ter sido muito diferente do mundo árido e congelado que conhecemos hoje. Novas imagens obtidas pela missão Mars Express, da Agência Espacial Europeia (ESA), revelam detalhes impressionantes de um gigantesco vale próximo ao equador marciano que preserva sinais de antigas inundações, atividade vulcânica e possíveis ambientes aquáticos. 

A região, chamada Shalbatana Vallis, é considerada uma das evidências mais intrigantes de que o Planeta Vermelho pode ter abrigado grandes volumes de água bilhões de anos atrás. Entre os indícios encontrados na região estão:

  • Canais profundos esculpidos por água;
  • Áreas de colapso conhecidas como “terreno caótico”;
  • Depósitos associados a atividade vulcânica;
  • Sinais de erosão provocada por antigos fluxos líquidos.

Um rio colossal moldado por megainundações

Com cerca de 1.300 quilômetros de extensão, Shalbatana Vallis corta parte da superfície marciana próximo à linha do equador. Os cientistas acreditam que a estrutura começou a se formar há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, quando enormes quantidades de água subterrânea romperam a superfície do planeta.

Essas megainundações teriam avançado violentamente pela paisagem, abrindo canais gigantescos e cavando vales profundos ao longo do terreno. Em alguns pontos, o canal principal chega a atingir aproximadamente 500 metros de profundidade, revelando a força impressionante desses antigos fluxos de água.

Vale gigantesco em Marte reforça hipótese de antigos oceanos no Planeta Vermelho. (Imagem: Getty Images via Canva)
Vale gigantesco em Marte reforça hipótese de antigos oceanos no Planeta Vermelho. (Imagem: Getty Images via Canva)

Além disso, os pesquisadores acreditam que o vale já foi ainda mais profundo no passado. Ao longo de bilhões de anos, sedimentos, cinzas vulcânicas e outros materiais acabaram preenchendo parte da estrutura original.

Sinais de vulcões, gelo e um possível oceano marciano

A área analisada mostra que Marte teve uma história geológica extremamente ativa. Imagens em alta resolução revelam depósitos escuros que podem corresponder a cinzas vulcânicas, posteriormente espalhadas pelos ventos marcianos. Também foram identificadas formações conhecidas como cristas enrugadas, normalmente associadas ao resfriamento e contração de antigos fluxos de lava.

Outro detalhe que chama atenção é a presença do chamado terreno caótico, um conjunto de blocos rochosos quebrados e superfícies irregulares. Esse tipo de paisagem pode ter surgido após o derretimento de gelo subterrâneo, provocando o colapso do solo.

A região onde o vale termina também desperta grande interesse científico. Muitos canais marcianos desembocam em áreas baixas do hemisfério norte do planeta, alimentando a hipótese de que um enorme oceano antigo possa ter existido ali em um período mais quente e úmido da história de Marte.

Marte ainda guarda marcas de um passado surpreendente

As imagens registradas pela câmera HRSC da missão Mars Express reforçam a ideia de que Marte já teve condições muito diferentes das atuais. Hoje frio e seco, o planeta apresenta sinais claros de que água líquida, atividade vulcânica intensa e processos geológicos complexos moldaram sua superfície durante bilhões de anos.

Além disso, crateras desgastadas, mesas rochosas isoladas e canais erosionados continuam funcionando como verdadeiros arquivos naturais da evolução marciana. Para os cientistas, cada nova imagem ajuda a reconstruir um passado que pode ter sido muito mais parecido com a Terra antiga do que se imaginava.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes