Desigualdade social também afeta pets e estudo comove donos de animais 

Desigualdade social também afeta a vida dos pets. (Foto: Primísia Estúdio via Canva)
Desigualdade social também afeta a vida dos pets. (Foto: Primísia Estúdio via Canva)

A saúde dos animais de estimação pode estar muito mais ligada às condições sociais dos tutores do que se imaginava. Um estudo publicado na revista científica Nature Scientific Reports, liderado por Sean Farrell em novembro de 2024, analisou dados de mais de 52 mil cães e gatos falecidos no Reino Unido e trouxe descobertas preocupantes sobre mortalidade precoce, comportamento animal e desigualdade socioeconômica.

Os resultados mostram que fatores como renda, ambiente social e até determinadas características físicas de algumas raças podem influenciar diretamente o tempo de vida dos pets. Além disso, a pesquisa levanta um alerta importante sobre como o acesso desigual aos cuidados veterinários pode impactar a saúde animal de forma silenciosa.

Fator social pesa mais que a genética

O estudo avaliou informações de 28.159 cães e 24.006 gatos, utilizando um sistema automatizado baseado na Classificação Internacional de Doenças 11, conhecido como CID-11. Os métodos tecnológicos utilizados no estudo ajudaram a detectar relações detalhadas entre diferentes fatores ligados à mortalidade precoce dos animais. 

Entre os achados mais relevantes, chamou atenção a forte associação entre áreas economicamente desfavorecidas e maior risco de morte precoce em animais de companhia. Segundo a análise, pets que vivem em regiões com melhores indicadores sociais apresentaram quase 50% menos risco de morrer precocemente.

Isso sugere que fatores como:

  • acesso a atendimento veterinário
  • alimentação de qualidade
  • prevenção de doenças
  • ambiente doméstico estável
  • cuidados comportamentais

podem influenciar profundamente a expectativa de vida dos animais.

Além disso, os pesquisadores destacam que a desigualdade social não afeta apenas humanos. Os impactos também recaem sobre cães e gatos, especialmente em famílias com menos acesso a recursos financeiros.

Comportamento animal apareceu como fator decisivo

Pesquisa analisou mais de 52 mil cães e gatos. (Foto: Getty Images via Canva)
Pesquisa analisou mais de 52 mil cães e gatos. (Foto: Getty Images via Canva)

Outro ponto importante identificado pelo estudo foi o peso das condições comportamentais na eutanásia precoce de cães jovens. Animais entre um e seis anos de idade apresentaram maior vulnerabilidade quando desenvolviam problemas relacionados ao comportamento.

Questões como agressividade, ansiedade intensa e dificuldades de socialização estiveram frequentemente associadas à decisão pela eutanásia. Esse dado reforça a importância do acompanhamento comportamental desde os primeiros meses de vida do animal.

Cada vez mais especialistas defendem que saúde mental animal também deve ser considerada parte essencial do bem-estar dos pets. Em muitos casos, intervenções precoces podem evitar situações extremas e melhorar significativamente a convivência entre tutor e animal.

Raças braquicefálicas entram novamente no centro do debate

A pesquisa também revelou um aumento de 19% no risco de mortalidade prematura em cães braquicefálicos, aqueles conhecidos pelo focinho achatado. Entre as raças mais populares com essas características estão:

  • Bulldog Francês
  • Pug
  • Bulldog Inglês
  • Shih-tzu

Esses animais frequentemente enfrentam problemas respiratórios, dificuldades térmicas e maior predisposição a doenças crônicas. Nos últimos anos, diversos estudos vêm alertando para os impactos do cruzamento seletivo excessivo em determinadas raças.

O novo levantamento reforça as preocupações relacionadas ao bem-estar desses cães e reacende discussões sobre práticas de criação mais responsáveis.

O que esse estudo muda daqui para frente?

Os pesquisadores destacam que compreender os padrões de mortalidade animal pode ajudar na criação de políticas públicas mais eficientes voltadas ao bem-estar dos pets. Além disso, os resultados evidenciam a necessidade de ampliar o acesso à medicina veterinária preventiva e ao suporte comportamental.

Mais do que companheiros, cães e gatos fazem parte da estrutura emocional de milhões de famílias. Por isso, entender como fatores sociais influenciam sua saúde pode ser fundamental para garantir vidas mais longas e saudáveis.

O estudo publicado na revista científica Nature Scientific Reports por Sean Farrell em 20 de novembro de 2024 mostra que o futuro da saúde animal pode depender não apenas da genética, mas também das condições sociais ao redor dos pets.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn