Conservantes comuns na dieta podem elevar risco de diabetes, sugere pesquisa

Conservantes podem elevar risco de diabetes tipo 2. (Atlasstudio via Canva)
Conservantes podem elevar risco de diabetes tipo 2. (Atlasstudio via Canva)

A alimentação moderna é marcada pela praticidade dos produtos industrializados, mas também pela presença crescente de aditivos alimentares, especialmente os conservantes. Em meio a esse cenário, um estudo publicado em 2026 na revista Nature Communications, conduzido por Hasenböhler et al., trouxe novas evidências sobre possíveis impactos desses compostos na saúde metabólica.

A pesquisa analisou dados de mais de 108 mil adultos ao longo de vários anos dentro da coorte NutriNet-Santé, uma das maiores investigações nutricionais prospectivas do mundo. O objetivo foi entender se a exposição contínua a conservantes estaria associada ao desenvolvimento de diabetes tipo 2.

Exposição alimentar sob análise em larga escala

Os resultados apontam uma associação consistente entre maior consumo de determinados conservantes e maior incidência de diabetes tipo 2. Ao longo do acompanhamento, foram identificados mais de 1.100 casos da doença, permitindo uma análise robusta dos padrões alimentares.

Entre os aditivos mais frequentemente associados ao aumento de risco estão:

  • Sorbato de potássio (E202)
  • Nitrito de sódio (E250)
  • Metabissulfito de potássio (E224)
  • Propionato de cálcio (E282)
  • Ácido fosfórico (E338)
  • Ácido cítrico (E330)

Também foram observadas associações com antioxidantes como ascorbato de sódio (E301) e alfa-tocoferol (E307), presentes em diversos alimentos industrializados.

Esses compostos estão amplamente distribuídos em produtos como carnes processadas, bebidas industrializadas, pães, molhos prontos e snacks.

Possíveis mecanismos biológicos envolvidos

Embora o estudo seja observacional e não estabeleça causalidade direta, existem hipóteses biológicas que ajudam a explicar os achados. Pesquisas anteriores sugerem que alguns conservantes podem influenciar processos metabólicos importantes, como:

  • Alterações na sensibilidade à insulina
  • Aumento de processos inflamatórios sistêmicos
  • Desequilíbrio da microbiota intestinal
  • Estresse oxidativo celular

Além disso, certos aditivos podem estar envolvidos na formação de substâncias associadas ao metabolismo da glicose, o que ajuda a contextualizar a relação com o diabetes tipo 2.

Onde esses compostos estão mais presentes

Pesquisa aponta impacto de aditivos na saúde metabólica. (Getty Images via Canva)
Pesquisa aponta impacto de aditivos na saúde metabólica. (Getty Images via Canva)

Os dados mostram que uma parte relevante da exposição ocorre por meio de alimentos ultraprocessados, mas os conservantes também aparecem em produtos variados do dia a dia.

Principais fontes alimentares incluem:

  • Carnes processadas e embutidos
  • Refrigerantes e bebidas industrializadas
  • Produtos de panificação e confeitaria
  • Alimentos prontos e congelados
  • Cereais matinais e snacks

Esse padrão reforça como a exposição pode ser ampla e contínua, mesmo em dietas consideradas “comuns”.

Implicações para a saúde pública 

Os achados da Nature Communications destacam a importância de priorizar alimentos frescos e minimamente processados.

Na prática, isso pode incluir:

  • Redução do consumo de ultraprocessados
  • Escolha de produtos com menos aditivos no rótulo
  • Maior preparo de refeições caseiras
  • Atenção à presença de conservantes em produtos cotidianos

Embora os conservantes tenham função tecnológica importante na segurança alimentar, o estudo sugere que sua exposição frequente pode ter efeitos metabólicos que merecem atenção científica contínua.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn