Medicamento antigo ganha novo uso contra doença infantil rara

Esperança para crianças com doença rara. (Foto: Pexels via Canva)
Esperança para crianças com doença rara. (Foto: Pexels via Canva)

Em meio aos avanços da medicina moderna, às vezes as maiores descobertas não vêm de novas moléculas, mas de medicamentos já conhecidos há décadas. Esse é o caso de uma substância antiga que está ganhando atenção por seu potencial de transformar o tratamento de uma doença genética extremamente rara em crianças.

Publicada com base em dados da colaboração entre Corewell Health, Michigan State University e a organização Every Cure, a pesquisa investiga novas aplicações para um fármaco já utilizado em outras condições médicas, incluindo infecções parasitárias e certos tipos de câncer.

Uma nova possibilidade para uma doença quase desconhecida

A condição em foco é a síndrome de Bachmann-Bupp (BABS), uma doença genética rara causada por mutações que afetam o desenvolvimento infantil. Embora pouco conhecida, seus impactos podem ser graves e incluem:

  • Atrasos importantes no desenvolvimento
  • Hipotonia muscular (fraqueza muscular)
  • Alterações no crescimento capilar
  • Comprometimento global do desenvolvimento neurológico

Por ser extremamente rara, com apenas cerca de 20 casos descritos no mundo, a doença ainda enfrenta grandes desafios para diagnóstico e tratamento.

O medicamento que chamou atenção dos cientistas

O foco da pesquisa é o DFMO (difluorometilornitina ou eflornitina), um medicamento já utilizado há anos no tratamento da doença do sono africana, além de aplicações dermatológicas e em protocolos contra neuroblastoma.

O interesse científico surgiu porque o DFMO atua diretamente em uma via biológica envolvida na BABS. A doença está ligada a alterações no gene ODC1, que regula processos celulares essenciais para o desenvolvimento.

O medicamento funciona ao:

  • Inibir a atividade da proteína ODC
  • Reduzir o excesso de atividade enzimática causada pela mutação
  • Restaurar parcialmente o equilíbrio celular

Resultados iniciais animadores

DFMO mostra novo uso em doença genética. (Foto: Getty Images via Canva)
DFMO mostra novo uso em doença genética. (Foto: Getty Images via Canva)

Em um número limitado de pacientes tratados experimentalmente, os primeiros sinais foram positivos. As observações indicam:

  • Melhora em alguns sintomas motores
  • Possível impacto no desenvolvimento global
  • Boa tolerância ao medicamento nos casos analisados

Embora ainda iniciais, esses resultados reforçam o potencial terapêutico da abordagem.

O desafio das doenças raras na medicina moderna

Apesar do entusiasmo científico, o avanço do tratamento enfrenta barreiras importantes. Entre elas:

  • Número extremamente reduzido de pacientes
  • Dificuldade para conduzir estudos clínicos amplos
  • Processos regulatórios complexos
  • Baixa conscientização médica sobre a doença

Esses fatores tornam o desenvolvimento de terapias mais lento do que em outras condições mais comuns.

Colaboração está acelerando a pesquisa

Para superar esses obstáculos, a organização Every Cure passou a atuar em parceria com instituições acadêmicas e médicas. O objetivo é acelerar a pesquisa e ampliar o acesso ao tratamento.

As principais frentes incluem:

  • Fortalecimento das evidências científicas
  • Apoio à identificação de novos pacientes
  • Estímulo a estudos pré-clínicos
  • Apoio regulatório para futuros ensaios clínicos

Com isso, um novo estudo pré-clínico já está sendo planejado, marcando um passo importante na validação da terapia.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn