Ornitorrinco semiaquático apresenta melanossomos ocos, nunca vistos antes em mamíferos

Ornitorrinco apresenta melanossomos ocos, característica inédita em mamíferos. (Imagem: Getty Images via Canva)
Ornitorrinco apresenta melanossomos ocos, característica inédita em mamíferos. (Imagem: Getty Images via Canva)

O ornitorrinco é reconhecido como um dos animais mais singulares do planeta, combinando características de diferentes grupos de vertebrados. Além de ser um mamífero ovíparo, ele apresenta esporões venenosos nos machos e mantém hábitos semiaquáticos, vivendo tanto em rios quanto em áreas terrestres. 

Essa combinação de traços já fazia do ornitorrinco um exemplo de diversidade evolutiva, mas um novo estudo publicado na revista Biology Letters revelou algo ainda mais inesperado: a presença de melanossomos ocos em sua pelagem, uma estrutura até então conhecida apenas em aves.

Essa descoberta amplia a compreensão sobre a evolução da pigmentação e adaptações térmicas em mamíferos, mostrando que o ornitorrinco possui soluções biológicas únicas para enfrentar desafios ambientais. Principais achados do estudo:

  • Melanossomos ocos presentes na pelagem, semelhantes aos das aves;
  • Distribuição aleatória dos melanossomos, sem gerar efeitos visuais como iridescência;
  • Predominância de melanossomos esféricos, associados a tons marrom-escuros;
  • Possível relação com hábitos aquáticos e ancestrais escavadores do animal.

Melanina: pigmento, proteção e regulação térmica

A melanina é responsável pela coloração de pelos, penas e pele, além de fornecer proteção contra radiação ultravioleta e auxiliar na regulação térmica. Em mamíferos, os melanossomos são geralmente preenchidos, enquanto em aves alguns podem ser ocos ou achatados, permitindo cores vibrantes ou efeitos de brilho.

Estudo revela pigmentação única do ornitorrinco, antes conhecida apenas em aves. (Imagem: Getty Images via Canva)
Estudo revela pigmentação única do ornitorrinco, antes conhecida apenas em aves. (Imagem: Getty Images via Canva)

No ornitorrinco, a coexistência de melanossomos esféricos e ocos é inédita entre os mamíferos. Essa configuração contribui para a coloração marrom-escura do animal e possivelmente oferece isolamento térmico adicional, uma característica útil para espécies que passam longos períodos em água fria.

Implicações evolutivas e ecológicas

A presença de melanossomos ocos sugere um passado evolutivo adaptativo, ligado aos hábitos semiaquáticos do ornitorrinco. Parentes próximos, como as equidnas, que vivem em ambientes terrestres, não apresentam essas estruturas, indicando que a transição de habitat pode ter levado à perda dessas adaptações em algumas espécies, enquanto o ornitorrinco as manteve.

Embora sua função completa ainda seja desconhecida, a descoberta reforça a necessidade de novas pesquisas sobre a biologia e evolução dos monotremados.

Ornitorrinco e o desafio à biologia

Este estudo confirma que o ornitorrinco continua desafiando explicações tradicionais da biologia. Características antes consideradas exclusivas de aves aparecem em um mamífero, ampliando nossa compreensão sobre evolução, pigmentação e adaptações fisiológicas

Cada nova descoberta evidencia que a ciência ainda tem muito a aprender com esse animal extraordinário, consolidando-o como um dos exemplos mais fascinantes de diversidade evolutiva e inovação biológica no reino animal.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes