Cientistas transformam garrafas PET em medicamento usado contra Parkinson

Lixo plástico pode ser usado na produção de L-DOPA. (Foto: Aflo via Canva)
Lixo plástico pode ser usado na produção de L-DOPA. (Foto: Aflo via Canva)

Transformar resíduos em soluções médicas pode parecer improvável, mas a ciência acaba de dar um passo importante nessa direção. Um estudo recente mostrou que garrafas plásticas descartadas podem ser utilizadas na produção de medicamentos usados no tratamento do Parkinson.

A pesquisa, publicada na revista científica Nature Sustainability (2026), demonstra que é possível converter o plástico do tipo PET em L-DOPA, substância essencial no controle da doença.

Como o plástico pode virar um medicamento

O processo começa com a quebra do plástico PET em componentes menores. Entre eles está o ácido tereftálico, uma molécula-chave que serve como base para a transformação química.

A partir daí, entra um elemento inovador: bactérias geneticamente modificadas. Os cientistas utilizaram microrganismos como a Escherichia coli, programados para converter esse material em compostos farmacêuticos.

Esse sistema funciona por meio de uma rota biossintética, permitindo que as bactérias realizem várias etapas químicas até produzir a L-DOPA.

Nos testes laboratoriais, o método alcançou uma produção de cerca de:

  • 5 gramas de L-DOPA por litro

Além disso, o processo foi capaz de utilizar não apenas material industrial, mas também plástico retirado diretamente de garrafas descartadas.

Por que a L-DOPA é tão importante no Parkinson?

Parkinson afeta movimentos e pode ser tratado com L-DOPA. (Foto: Pixelshot via Canva)
Parkinson afeta movimentos e pode ser tratado com L-DOPA. (Foto: Pixelshot via Canva)

A L-DOPA é considerada um dos tratamentos mais eficazes para o Parkinson, uma doença neurodegenerativa que afeta principalmente os movimentos.

No organismo, essa substância é convertida em dopamina, um neurotransmissor fundamental para o controle motor.

Quando há redução da dopamina no cérebro, surgem sintomas como:

  • Tremores involuntários
  • Rigidez muscular
  • Lentidão de movimentos
  • Dificuldade de coordenação

Por isso, a reposição dessa substância é essencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Uma solução que une saúde e sustentabilidade

Além do impacto na medicina, a descoberta traz uma nova perspectiva ambiental. Atualmente, grande parte do plástico PET produzido no mundo não é reciclado e acaba acumulado no meio ambiente.

A nova técnica propõe transformar esse resíduo em algo de alto valor, seguindo o conceito de economia circular.

Nesse modelo:

  • Resíduos deixam de ser descartados
  • Passam a ser reutilizados como matéria-prima
  • Geram produtos úteis, como medicamentos

Isso abre caminho para uma abordagem mais sustentável na indústria farmacêutica.

O que ainda falta para chegar ao uso real

Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda está em fase inicial. Os experimentos foram realizados em ambiente controlado, o que significa que ainda há desafios a serem superados.

Entre os próximos passos estão:

  • Aumentar a eficiência do processo
  • Reduzir custos de produção
  • Adaptar a técnica para escala industrial

Somente após essas etapas será possível avaliar o uso em larga escala.

Uma descoberta que pode transformar duas crises globais

O estudo publicado na Nature Sustainability mostra que é possível enfrentar dois grandes desafios ao mesmo tempo: a poluição por plástico e a necessidade de novas formas de produção de medicamentos.

Ao transformar lixo em tratamento, a ciência aponta para um futuro em que sustentabilidade e saúde caminham juntas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn