Planeta com oceano eterno de magma pode esconder enormes reservas de enxofre

Planeta com oceano de magma pode esconder grandes reservas de enxofre (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)
Planeta com oceano de magma pode esconder grandes reservas de enxofre (Imagem: Fala Ciência via ChatGPT)

A diversidade de mundos além do Sistema Solar continua surpreendendo os astrônomos. Um novo estudo publicado na Nature Astronomy descreve um tipo incomum de exoplaneta que pode manter um oceano global de magma por bilhões de anos. Esse ambiente extremo não apenas molda a estrutura do planeta, como também permite o armazenamento de grandes quantidades de enxofre em seu interior.

O objeto em questão é o L 98-59 d, um planeta que orbita uma estrela anã vermelha localizada a aproximadamente 35 anos-luz da Terra. Com tamanho cerca de 1,6 vez maior que o da Terra, ele apresentou características inesperadas quando observado pelo Telescópio Espacial James Webb (JWST) e por observatórios terrestres.

Entre os sinais mais intrigantes detectados estão gases sulfurosos na atmosfera e uma densidade surpreendentemente baixa para um planeta rochoso desse porte. Esses fatores indicaram que ele não se encaixa nas categorias tradicionais usadas para classificar exoplanetas. Entre os pontos principais revelados pelo estudo:

  • Presença de sulfeto de hidrogênio na atmosfera;
  • Indícios de oceano global de magma abaixo da superfície;
  • Interior capaz de armazenar voláteis ricos em enxofre;
  • Evolução planetária diferente das super-Terras conhecidas.

Essas características sugerem que L 98-59 d pode representar uma nova classe de planeta ainda pouco conhecida.

Um oceano de magma que nunca se solidificou

Modelos computacionais avançados indicam que o interior do planeta é dominado por silicatos fundidos, semelhantes à lava terrestre. No entanto, diferentemente do que ocorreu na Terra ao longo da evolução geológica, esse material permanece líquido em grande escala.

Exoplaneta com magma eterno desafia classificação dos astrônomos (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Exoplaneta com magma eterno desafia classificação dos astrônomos (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

O resultado seria um oceano de magma profundo, que poderia se estender por milhares de quilômetros. Esse reservatório subterrâneo funciona como um gigantesco sistema químico capaz de absorver e liberar gases ao longo de bilhões de anos.

Além disso, esse processo ajuda a explicar como o planeta consegue manter uma atmosfera relativamente espessa, mesmo estando exposto à radiação intensa da estrela hospedeira.

Atmosfera sulfurosa e química impulsionada pela estrela

Observações recentes detectaram dióxido de enxofre e outros compostos sulfurosos nas camadas superiores da atmosfera do planeta. Segundo os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores, essas substâncias podem surgir quando a radiação ultravioleta da estrela desencadeia reações químicas no gás atmosférico.

Enquanto isso, o oceano de magma atua como um reservatório de voláteis, armazenando elementos químicos e liberando-os gradualmente ao longo do tempo geológico. Essa interação entre interior e atmosfera explica as propriedades peculiares observadas hoje.

Um possível novo tipo de planeta na galáxia

Simulações indicam que L 98-59 d pode ter se formado com uma quantidade significativa de materiais voláteis, possivelmente lembrando inicialmente um planeta semelhante aos sub-Netunos. Com o passar de bilhões de anos, ele teria perdido parte da atmosfera e se contraído até atingir o estado atual. Esse cenário levanta uma possibilidade intrigante: mundos semelhantes podem ser mais comuns do que se pensava.

Além disso, compreender esses ambientes extremos ajuda a responder perguntas fundamentais sobre a evolução planetária, já que todos os planetas rochosos passam por fases de magma global em sua juventude, incluindo a própria Terra. Com novos dados esperados de telescópios espaciais e missões futuras, como Ariel e PLATO, os cientistas pretendem investigar outros exoplanetas com características semelhantes. Caso confirmados, esses mundos podem revelar uma diversidade planetária muito maior do que a imaginada até agora.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes