Trabalhar com inteligência artificial pode tornar pessoas mais criativas, mostra estudo

Estudo revela que IA pode aumentar criatividade humana (Imagem: Getty Images via Canva)
Estudo revela que IA pode aumentar criatividade humana (Imagem: Getty Images via Canva)

A relação entre humanos e inteligência artificial costuma ser discutida sob a perspectiva da automação e da substituição de tarefas. No entanto, evidências científicas recentes indicam um cenário diferente. Em muitos casos, sistemas inteligentes podem atuar como estímulos criativos, ajudando pessoas a explorar ideias inesperadas e desenvolver soluções mais inovadoras.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Swansea investigou justamente essa interação. No experimento, mais de 800 participantes utilizaram uma plataforma digital para criar modelos de carros virtuais enquanto recebiam sugestões visuais produzidas por algoritmos de IA.

O objetivo era observar se essas sugestões influenciariam a forma como os participantes pensavam e desenvolviam seus projetos. Os resultados indicaram que a presença da IA não apenas auxiliou na tarefa, como também levou as pessoas a explorar mais possibilidades criativas. Entre os principais efeitos observados no experimento, destacam-se:

  • Maior tempo dedicado ao processo de criação;
  • Exploração de ideias mais variadas e incomuns;
  • Maior envolvimento com a tarefa de design;
  • Resultados considerados mais criativos.

Esses dados reforçam a ideia de que a colaboração entre humanos e sistemas inteligentes pode estimular processos criativos em vez de limitá-los.

Quando muitas ideias aparecem, a criatividade aumenta

Um dos aspectos mais interessantes do experimento foi a forma como a IA apresentava suas sugestões. Em vez de mostrar apenas a melhor solução possível, o sistema gerava galerias completas de conceitos diferentes.

IA pode ajudar pessoas a criar ideias mais inovadoras (Imagem: Getty Images via Canva)
IA pode ajudar pessoas a criar ideias mais inovadoras (Imagem: Getty Images via Canva)

Para isso, foi utilizado um método computacional chamado MAP-Elites, que produz uma ampla variedade de alternativas dentro de um mesmo espaço de design. Assim, os participantes tinham acesso a diversas possibilidades, incluindo:

  • Propostas altamente eficientes;
  • Conceitos incomuns ou ousados;
  • Designs experimentais ou imperfeitos.

Essa diversidade acabou desempenhando um papel fundamental. Ao visualizar múltiplas opções, os participantes passaram a questionar suas próprias ideias iniciais e explorar caminhos criativos que talvez não considerassem sozinhos.

Avaliar IA apenas por métricas simples pode ser um erro

Os resultados da pesquisa também levantam um debate importante sobre como a inteligência artificial criativa costuma ser avaliada. Tradicionalmente, ferramentas digitais são analisadas com base em indicadores simples, como número de cliques ou frequência de uso das sugestões. No entanto, o estudo publicado na revista ACM Transactions on Interactive Intelligent Systems, conduzido por Sean P. Walton e colaboradores, indica que essa abordagem pode ser limitada. 

Isso porque a IA pode influenciar aspectos menos visíveis do processo criativo, como a inspiração gerada durante a atividade, mudanças na forma de pensar dos usuários e a disposição para experimentar novas ideias. Ao considerar esses fatores mais profundos, os pesquisadores sugerem que é possível obter uma compreensão mais completa do impacto real da inteligência artificial na criatividade humana.

Humanos e IA podem formar uma parceria criativa poderosa

À medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais presente em áreas como engenharia, arquitetura, design e desenvolvimento de jogos, compreender essa colaboração torna-se essencial.

Em vez de substituir a criatividade humana, os resultados do estudo sugerem que a IA pode funcionar como um catalisador de ideias, ampliando a capacidade das pessoas de explorar soluções originais.

No futuro, ferramentas desse tipo podem ajudar profissionais e estudantes a pensar de forma mais aberta, testar conceitos diferentes e descobrir caminhos criativos inesperados.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes