Em maio de 2024, uma supertempestade solar de grandes proporções atravessou o Sistema Solar e atingiu diversos planetas. Na Terra, o fenômeno provocou auroras intensas e chamou atenção de cientistas. No entanto, em Marte, os efeitos foram ainda mais impressionantes. Dados obtidos por sondas em órbita revelaram que a atmosfera superior do planeta sofreu uma injeção massiva de partículas energéticas, alterando temporariamente sua estrutura.
As observações foram realizadas por duas missões em operação ao redor do planeta: Mars Express e ExoMars Trace Gas Orbiter (TGO). A análise detalhada do evento foi publicada na revista científica Nature Communications, em estudo liderado por Jacob Parrott.
Durante o fenômeno, sensores da missão detectaram níveis incomuns de radiação. Em apenas 64 horas, os instrumentos registraram uma exposição equivalente a cerca de 200 dias de atividade solar normal. Entre os principais efeitos observados estão:
- Aumento intenso da densidade de elétrons na atmosfera marciana;
- Perturbações nos sistemas eletrônicos das sondas orbitais;
- Inundação de partículas energéticas vindas do Sol;
- Alterações na propagação de sinais de rádio na ionosfera.
Essas medições ajudam os cientistas a entender melhor como o clima espacial influencia planetas sem forte campo magnético.
Um planeta muito mais vulnerável ao clima solar
A diferença entre os impactos em Marte e na Terra está principalmente na proteção magnética. Nosso planeta possui um campo magnético global capaz de desviar grande parte das partículas solares.
Marte, por outro lado, praticamente não possui um escudo magnético global. Como resultado, partículas de alta energia conseguem atingir diretamente sua atmosfera superior.
Durante a supertempestade, medições indicaram mudanças significativas em duas regiões da atmosfera marciana, localizadas aproximadamente entre 110 e 130 quilômetros de altitude. Nessas camadas, a densidade de elétrons aumentou drasticamente, chegando a valores raramente observados.
Esse tipo de perturbação pode interferir em comunicações espaciais e medições científicas, especialmente em missões que utilizam radar para explorar a superfície do planeta.
Técnica inovadora revelou detalhes do fenômeno

Para investigar o impacto da tempestade solar, os cientistas utilizaram uma técnica chamada ocultação de rádio. Esse método consiste em analisar como sinais de rádio são modificados ao atravessar a atmosfera de um planeta.
No experimento, a sonda Mars Express enviou um sinal que foi captado pela TGO no momento em que desaparecia atrás do horizonte de Marte. À medida que o sinal atravessava diferentes camadas atmosféricas, ele sofria pequenas alterações. Essas mudanças permitiram calcular propriedades importantes da atmosfera, como:
- Densidade de elétrons;
- Estrutura das camadas ionizadas;
- Efeitos da tempestade solar na ionosfera;
Os resultados também foram comparados com dados da missão MAVEN, fortalecendo as conclusões sobre o evento.
Tempestades solares revelam segredos sobre a perda da atmosfera marciana
Além de revelar como o Sol influencia diretamente a atmosfera marciana, esses dados ajudam a esclarecer um dos grandes mistérios do planeta: a perda de grande parte de sua atmosfera ao longo da história. A exposição constante a partículas solares pode ter contribuído para que Marte perdesse enormes quantidades de gases e água para o espaço ao longo de bilhões de anos.
Nesse contexto, compreender o comportamento da atmosfera durante tempestades solares torna-se fundamental para o planejamento de futuras missões robóticas, a proteção de equipamentos orbitais e também a preparação de missões humanas ao planeta vermelho.
À medida que novas observações são realizadas, os cientistas avançam na compreensão do clima espacial interplanetário, um fator crucial para tornar a exploração segura do Sistema Solar cada vez mais viável.
Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.

