Onças podem desaparecer da Mata Atlântica por falta de alimento

Caça ilegal ameaça futuro da onça-pintada na Mata Atlântica (Imagem: Getty Images via Canva)
Caça ilegal ameaça futuro da onça-pintada na Mata Atlântica (Imagem: Getty Images via Canva)

A onça-pintada (Panthera onca), maior felino das Américas e símbolo da biodiversidade brasileira, pode desaparecer da Mata Atlântica nas próximas décadas. O alerta vem de um estudo publicado na revista Global Ecology and Conservation, que aponta um fator muitas vezes negligenciado: a escassez de presas naturais causada principalmente pela caça ilegal.

Embora a perda de habitat continue sendo um problema relevante, os pesquisadores identificaram que a redução na oferta de alimento tem impacto direto sobre a sobrevivência do predador. Atualmente, estima-se que restem cerca de 300 indivíduos no bioma, número considerado crítico para a manutenção de uma população viável. Entre as principais presas afetadas pela pressão humana estão:

  • Porco-do-mato (Tayassu pecari);
  • Cateto (Dicotyles tajacu);
  • Cervídeos de médio e grande porte.

A diminuição dessas espécies compromete a base alimentar da onça, gerando um efeito cascata em toda a cadeia ecológica.

A queda do predador máximo pode desencadear efeito dominó no ecossistema

Como predador de topo, a onça exerce papel essencial no controle populacional de herbívoros e na manutenção do equilíbrio ambiental. Portanto, sua possível extinção na Mata Atlântica representaria não apenas a perda de uma espécie emblemática, mas também um colapso funcional do ecossistema.

Para compreender o cenário, cientistas de instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade realizaram monitoramento com armadilhas fotográficas em áreas protegidas. Além disso, avaliaram a abundância e a biomassa de 14 espécies que compõem a dieta do felino.

Os dados revelaram um padrão preocupante: regiões com maior disponibilidade de presas, especialmente em corredores de vegetação nativa, ainda mantêm populações de onça. Por outro lado, áreas costeiras e locais de fácil acesso humano apresentam queda acentuada tanto de presas quanto do próprio predador.

Quando a caça ilegal empurra o maior predador ao desaparecimento

A pesquisa indica que a caça ilegal é um dos principais motores desse declínio. Em locais mais isolados, onde o acesso é difícil, as presas mostram maior abundância. Já em regiões fragmentadas e próximas a centros urbanos, a pressão humana reduz drasticamente as populações de animais silvestres.

Consequentemente, a onça enfrenta um cenário de insegurança alimentar que compromete sua reprodução e permanência no território. Sem ações efetivas de fiscalização, recuperação de habitat e fortalecimento de corredores ecológicos, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder seu principal predador.

Diante desse quadro, especialistas defendem medidas integradas que envolvam controle rigoroso da caça, restauração ambiental e políticas públicas de conservação. Preservar a onça-pintada significa, em última análise, proteger a saúde ecológica de um dos biomas mais biodiversos e ameaçados do planeta.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes