Pesquisa detecta microplásticos em 90% dos tumores de próstata

Partículas plásticas são detectadas na próstata. (Foto: Pcess609 via Canva)
Partículas plásticas são detectadas na próstata. (Foto: Pcess609 via Canva)

Os microplásticos já foram detectados no sangue, na placenta e em diversos órgãos humanos. Agora, uma nova investigação aponta que essas partículas microscópicas também estão presentes em tumores de câncer de próstata, levantando questionamentos sobre possíveis impactos na saúde masculina.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do NYU Langone Health, incluindo o Perlmutter Cancer Center e o Center for the Investigation of Environmental Hazards. Os resultados serão apresentados no ASCO Genitourinary Cancers Symposium.

O que o estudo encontrou

Os pesquisadores analisaram amostras de tecido prostático de 10 homens submetidos à cirurgia para retirada da próstata. As análises identificaram partículas de plástico em 90% das amostras tumorais e em 70% dos tecidos benignos adjacentes.

Além da alta frequência, chamou atenção a diferença de concentração. Em média, os tumores apresentaram cerca de 2,5 vezes mais microplásticos do que o tecido não canceroso. As amostras malignas continham aproximadamente 40 microgramas de plástico por grama de tecido, enquanto as benignas apresentaram cerca de 16 microgramas por grama.

Esses dados sugerem uma possível associação entre exposição a microplásticos e alterações no ambiente tumoral, embora não estabeleçam relação de causa e efeito.

Como os microplásticos entram no organismo

Os microplásticos são fragmentos resultantes da degradação de materiais presentes em embalagens, cosméticos e inúmeros produtos do cotidiano. Eles podem penetrar no corpo por diferentes vias:

• Ingestão de alimentos e água contaminados
• Inalação de partículas suspensas no ar
• Contato cutâneo com produtos que contêm plástico

Estudos anteriores já demonstraram a presença dessas partículas em múltiplos tecidos humanos. Contudo, ainda há incertezas sobre seus efeitos biológicos a longo prazo.

Metodologia rigorosa para evitar contaminação

Como o plástico é amplamente utilizado em ambientes hospitalares e laboratoriais, os cientistas adotaram medidas rigorosas para minimizar interferências externas. Ferramentas plásticas foram substituídas por materiais alternativos, como alumínio e algodão, e as análises ocorreram em salas controladas.

A equipe avaliou 12 dos polímeros mais comuns e utilizou equipamentos especializados para determinar quantidade, composição química e estrutura das partículas presentes nas amostras.

Inflamação pode ser o elo biológico

Uma das hipóteses levantadas é que os microplásticos possam desencadear inflamação crônica no tecido prostático. A inflamação persistente é reconhecida como um fator que pode contribuir para alterações celulares e instabilidade genética, aumentando o risco de desenvolvimento tumoral.

Embora o estudo seja considerado preliminar devido ao número reduzido de participantes, ele representa uma das primeiras análises realizadas em população ocidental comparando diretamente tecido tumoral e tecido benigno da próstata.

Impacto na saúde pública

De acordo com o Centers for Disease Control and Prevention, aproximadamente um em cada oito homens será diagnosticado com câncer de próstata ao longo da vida nos Estados Unidos. Diante dessa prevalência, investigar possíveis fatores ambientais torna-se essencial.

A detecção de microplásticos em 90% dos tumores de próstata reforça a necessidade de aprofundar pesquisas sobre os efeitos dessas partículas no organismo. Embora ainda não seja possível afirmar que o plástico cause câncer, os dados indicam que sua presença no tecido tumoral merece atenção científica.

Estudos maiores serão fundamentais para esclarecer se existe relação causal e para orientar políticas de redução da exposição ambiental.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn