Dieta saudável vai além de contar carboidratos ou gorduras

Escolhas alimentares impactam risco de infarto. (Foto: Aflo via Canva)
Escolhas alimentares impactam risco de infarto. (Foto: Aflo via Canva)

Durante anos, a discussão sobre reduzir carboidratos ou diminuir gorduras dominou as recomendações nutricionais voltadas à saúde cardiovascular. No entanto, uma análise abrangente envolvendo quase 200 mil adultos indica que o ponto central da prevenção pode estar em outro aspecto: a qualidade dos alimentos consumidos.

Os dados vêm do estudo Effect of Low-Carbohydrate and Low-Fat Diets on Metabolomic Indices and Coronary Artery Disease in US Individuals, publicado em 2026 no JACC, principal periódico científico da cardiologia clínica, com autoria principal de Zhiyuan Wu (DOI: 10.1016/j.jacc.2025.12.038).

Um dos maiores acompanhamentos nutricionais já realizados

A pesquisa reuniu informações de 198.473 participantes acompanhados por mais de 30 anos. Ao longo desse período, foram confirmados 20.033 casos de doença arterial coronariana.

Além dos registros alimentares periódicos, os pesquisadores avaliaram marcadores metabolômicos, permitindo identificar alterações bioquímicas associadas a diferentes padrões alimentares. Esse cruzamento de dados clínicos e laboratoriais fortalece a consistência das conclusões.

Nem toda dieta “low” é igual

O estudo diferenciou versões saudáveis e não saudáveis tanto de dietas com baixo teor de carboidratos quanto de dietas com baixo teor de gordura.

Os resultados mostraram um padrão claro:

• Dietas com predominância de vegetais, grãos integrais e gorduras insaturadas estiveram associadas a menor risco de doença coronariana
• Planos alimentares ricos em carboidratos refinados, carnes processadas e gorduras saturadas apresentaram maior risco cardiovascular
• Perfis mais saudáveis exibiram melhores níveis de HDL, menor concentração de triglicerídeos e menos inflamação sistêmica

Isso significa que simplesmente reduzir um macronutriente não garante proteção cardíaca. A origem e o grau de processamento dos alimentos fazem diferença substancial.

Evidências metabólicas reforçam os achados

A análise metabolômica revelou que indivíduos com maior adesão a padrões alimentares de alta qualidade apresentaram biomarcadores associados a melhor funcionamento metabólico.

Em contrapartida, dietas baseadas em produtos ultraprocessados geraram perfis menos favoráveis, mesmo quando classificadas como low carb ou low fat.

Esses dados indicam que diferentes abordagens alimentares podem convergir para benefícios semelhantes quando fundamentadas em alimentos minimamente processados e ricos em nutrientes.

Aplicação prática para prevenção cardiovascular

A discussão não deve se limitar à proporção de carboidratos ou gorduras. O foco deve estar na composição qualitativa da dieta.

Para promover saúde do coração, as evidências apontam para:

• Maior consumo de alimentos de origem vegetal
• Inclusão regular de grãos integrais
• Prioridade para gorduras insaturadas
• Redução de produtos refinados e ultraprocessados

Embora os resultados não incluam dietas extremamente restritivas, como protocolos cetogênicos muito rigorosos, eles oferecem evidências robustas dentro dos padrões alimentares mais comuns.

Após três décadas de acompanhamento, o estudo publicado no JACC reforça que a prevenção da doença arterial coronariana depende menos de cortar grupos alimentares inteiros e mais de selecionar opções nutritivas e equilibradas.

Em termos práticos, a proteção cardiovascular não está apenas na quantidade de macronutrientes, mas principalmente na qualidade do que vai ao prato. Escolhas consistentes ao longo do tempo podem moldar biomarcadores metabólicos e reduzir o risco de eventos cardíacos.

Mais do que aderir a rótulos como low carb ou low fat, a ciência aponta para uma estratégia mais simples e sustentável: priorizar alimentos integrais e nutricionalmente densos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn