Jovem tetraplégico volta a escrever após tratamento experimental com Polilaminina

Luiz Otávio avança após dose experimental com Polilaminina. (Foto: Reprodução / Instagram)
Luiz Otávio avança após dose experimental com Polilaminina. (Foto: Reprodução / Instagram)

A possibilidade de recuperar movimentos após uma lesão na medula espinhal sempre foi considerada um dos maiores desafios da neurologia. No entanto, o caso de Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, trouxe novos olhares para a pesquisa em regeneração medular no Brasil.

Luiz Otávio ficou tetraplégico após um disparo acidental no pescoço em outubro do ano passado. No dia 20 de janeiro, ele recebeu uma dose experimental de polilaminina, substância que está em fase de estudos e ainda não possui aprovação da Anvisa. Um mês depois, sinais de evolução motora passaram a ser observados.

O que é a polilaminina

A polilaminina é derivada da laminina, proteína essencial para a estrutura e organização dos tecidos nervosos. O composto vem sendo desenvolvido há aproximadamente 25 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob liderança da pesquisadora Tatiana Sampaio, em parceria com o laboratório Cristália.

A proposta terapêutica é estimular um ambiente favorável à reorganização das fibras nervosas lesionadas. Em lesões graves da medula, a comunicação entre cérebro e membros fica interrompida. A substância busca favorecer a reconexão neural e potencializar a recuperação funcional.

Nesta fase de estudos, o medicamento será testado em cinco pacientes voluntários. Como ainda não é liberado para uso regular, sua aplicação depende de autorização judicial.

Avanços observados no primeiro mês

Antes da aplicação da polilaminina, Luiz Otávio já apresentava discreta recuperação nos braços e mãos, mas tinha dificuldade para realizar movimentos mais precisos. Após o procedimento, novos progressos foram registrados.

Entre as evoluções observadas estão:

• Capacidade de segurar objetos com mais firmeza
• Uso de colher e garfo para alimentação
• Escrita do próprio nome
• Indícios de ativação muscular em membros inferiores

Apesar de permanecer acamado, os registros em vídeo mostram melhora funcional significativa nas atividades do dia a dia.

Um ponto relevante é que a aplicação ideal da substância é recomendada até 72 horas após a lesão. No caso de Luiz Otávio, o intervalo foi superior a quatro meses. Ainda assim, a equipe médica considerou que a lesão permanecia em fase aguda, o que poderia permitir resposta ao tratamento.

Cautela e acompanhamento médico

Embora os resultados sejam animadores, é essencial manter prudência. Lesões medulares apresentam evolução complexa e variam de paciente para paciente. Além disso, a reabilitação envolve fisioterapia contínua, suporte multidisciplinar e tempo para reorganização neural.

Por se tratar de tratamento experimental, ainda não é possível determinar com precisão o impacto isolado da polilaminina na recuperação de Luiz Otávio. Avaliações médicas periódicas serão determinantes para analisar a progressão.

Um passo importante na medicina regenerativa

O caso de Luiz Otávio Santos Nunez reforça o potencial da medicina regenerativa brasileira na busca por terapias inovadoras para tetraplegia e outras sequelas neurológicas graves. Se os resultados forem confirmados em estudos clínicos controlados, a polilaminina poderá representar avanço relevante no tratamento de lesões da medula espinhal.

Enquanto novas análises são conduzidas, a evolução do jovem simboliza esperança e destaca a importância de pesquisas voltadas à regeneração do sistema nervoso central.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn