Luas de Júpiter podem ter nascido com ingredientes da vida

Composição de imagens da Voyager 1 mostra Júpiter e suas luas galileanas (1979) (Imagem: NASA CC0 Images)
Composição de imagens da Voyager 1 mostra Júpiter e suas luas galileanas (1979) (Imagem: NASA CC0 Images)

As maiores luas de Júpiter podem ter começado sua história já equipadas com os componentes químicos essenciais à vida. Uma nova pesquisa liderada pelo Southwest Research Institute sugere que moléculas orgânicas complexas (MOCs) foram incorporadas a esses mundos gelados ainda durante sua formação, há bilhões de anos.

O estudo, publicado nas revistas The Planetary Science Journal e Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, combinou modelos astrofísicos avançados com dados experimentais de laboratório para reconstruir o ambiente químico do início do sistema solar. Três pontos chamam atenção:

  • Grãos de gelo irradiados por luz ultravioleta podem gerar compostos ricos em carbono;
  • Parte dessas moléculas teria migrado até a órbita de Júpiter;
  • As luas teriam incorporado esse material sem grandes alterações químicas.

O laboratório natural onde a química da vida começou

Discos de gás e poeira ao redor de estrelas jovens, conhecidos como discos protoplanetários, são ambientes propícios para reações químicas complexas. Quando partículas de gelo contendo metanol, dióxido de carbono e amônia são expostas à radiação ultravioleta ou a aquecimento moderado, formam-se compostos orgânicos com carbono, oxigênio e nitrogênio, elementos fundamentais para estruturas biológicas.

Os pesquisadores modelaram tanto a nebulosa protossolar, que originou o Sol e os planetas, quanto o disco circunplanetário de Júpiter, região onde nasceram suas principais luas: Europa, Ganimedes, Calisto e Io.

Os resultados indicam que até metade das partículas simuladas poderia ter transportado moléculas orgânicas complexas formadas na nebulosa solar para o entorno de Júpiter. Além disso, parte dessa química pode ter ocorrido localmente, dentro do próprio disco do planeta gigante, em regiões com temperatura suficiente para estimular reações orgânicas.

Oceanos subterrâneos e potencial habitabilidade

Entre as luas galileanas, Europa, Ganimedes e Calisto são consideradas candidatas promissoras à habitabilidade por abrigarem oceanos subterrâneos sob suas crostas de gelo. Caso esses mundos tenham se formado já contendo compostos orgânicos complexos, a combinação de água líquida, fontes internas de energia e moléculas precursoras da vida pode ter estabelecido condições favoráveis a processos pré-bióticos, como a síntese de aminoácidos e nucleotídeos. 

Essas conclusões tornam-se ainda mais relevantes diante das missões Europa Clipper e JUICE, atualmente em viagem ao sistema joviano. Ao analisar a composição química da superfície e do subsolo dessas luas, as sondas poderão avaliar hipóteses sobre a origem e a preservação desses compostos ao longo do tempo. 

Dessa forma, o estudo fortalece a hipótese de que a química associada à vida pode estar enraizada nos estágios iniciais da formação planetária, ampliando as perspectivas da astrobiologia e redefinindo o potencial habitável além da Terra.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes