Cientistas descobrem sistema magmático ativo sob vulcão marciano

Vulcão jovem revela magma ativo sob Marte (Imagem: Bartosz Pieterek)
Vulcão jovem revela magma ativo sob Marte (Imagem: Bartosz Pieterek)

Marte pode parecer um planeta frio e geologicamente adormecido. No entanto, novas evidências indicam que seu interior já foi muito mais dinâmico do que se pensava. Um estudo publicado na revista Geology revelou que um vulcão relativamente jovem no planeta vermelho não foi resultado de uma única erupção isolada, mas sim de um sistema magmático complexo e persistente.

A pesquisa analisou uma região localizada ao sul de Pavonis Mons, um dos maiores vulcões de Marte. Os dados sugerem que o magma abaixo da superfície permaneceu ativo por longos períodos, passando por transformações químicas antes de alcançar o exterior. Logo nos primeiros levantamentos, os cientistas identificaram:

  • Múltiplas fases eruptivas ao longo do tempo;
  • Mudanças claras na composição mineral das lavas;
  • Indícios de variações na profundidade de origem do magma;
  • Evidências de armazenamento prolongado no subsolo.

Esses fatores, em conjunto, apontam para um cenário muito mais sofisticado do que uma simples erupção episódica.

O que os minerais revelam sobre o interior marciano

Como ainda não há amostras diretas desses vulcões disponíveis em laboratório, os pesquisadores utilizaram dados orbitais de alta resolução para estudar as assinaturas espectrais dos minerais presentes na superfície.

Essas assinaturas funcionam como uma “impressão digital” do magma que as originou. Ao comparar diferentes fluxos de lava, foi possível identificar alterações progressivas na composição química. Isso indica que o magma sofreu diferenciação magmática, um processo no qual o material derretido evolui à medida que esfria, cristaliza parcialmente ou muda de reservatório subterrâneo.

Além disso, as primeiras erupções parecem ter ocorrido por meio de fissuras extensas. Posteriormente, a atividade se concentrou em aberturas mais localizadas, formando estruturas semelhantes a cones vulcânicos. Apesar dessas diferenças superficiais, tudo aponta para o mesmo reservatório profundo alimentando as fases eruptivas.

Marte mais ativo do que se imaginava

As descobertas reforçam a ideia de que o interior de Marte permaneceu termicamente ativo por mais tempo do que estimativas anteriores sugeriam. Isso tem implicações importantes para compreender:

  • A evolução térmica do planeta;
  • O tempo de resfriamento do manto marciano;
  • A possibilidade de atividade vulcânica relativamente recente.

Em outras palavras, Marte não foi apenas palco de grandes vulcões no passado distante. Seu subsolo pode ter mantido sistemas magmáticos organizados e duradouros, capazes de evoluir ao longo de milhões de anos.

Esse tipo de investigação amplia nossa compreensão não apenas do planeta vermelho, mas também da dinâmica interna de outros mundos rochosos do Sistema Solar.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes