CRISPR contra superbactérias: tecnologia pode reverter resistência a antibióticos

CRISPR pode reverter resistência bacteriana. (Foto: Getty Images via Canva)
CRISPR pode reverter resistência bacteriana. (Foto: Getty Images via Canva)

A resistência aos antibióticos figura atualmente entre os desafios mais graves da saúde pública mundial. Com o uso excessivo e inadequado desses medicamentos, bactérias evoluem rapidamente, tornando tratamentos comuns cada vez menos eficazes. Estimativas internacionais indicam que, até 2050, infecções causadas por microrganismos resistentes poderão resultar em milhões de mortes anuais.

Diante desse cenário preocupante, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego desenvolveram uma estratégia inovadora que pode não apenas conter, mas reverter a resistência bacteriana. A nova abordagem utiliza um sistema avançado de edição genética CRISPR combinado com princípios de direcionamento genético.

Engenharia populacional aplicada às bactérias

O método foi descrito no estudo “A conjugal gene drive-like system efficiently suppresses antibiotic resistance in a bacterial population”, liderado por Saluja Kaduwal, publicado em 2026 na revista npj Antimicrobials and Resistance (DOI: 10.1038/s44259-026-00181-z).

A proposta envolve um sistema chamado pPro-MobV, uma plataforma de Genética Proativa de segunda geração. Em vez de simplesmente matar as bactérias, a tecnologia atua diretamente sobre os genes de resistência presentes nos microrganismos.

Funciona assim:

  • Um cassete genético é inserido na bactéria
  • Esse elemento identifica genes de resistência presentes em plasmídeos
  • Ao se integrar nesses plasmídeos, ele interrompe os genes que conferem proteção contra antibióticos
  • Como resultado, as bactérias voltam a ser sensíveis ao tratamento

Essa estratégia representa uma mudança de paradigma, pois busca neutralizar o problema na raiz genética.

Transferência conjugativa: espalhando a solução

Um dos diferenciais do sistema pPro-MobV é sua capacidade de se espalhar entre bactérias por meio da transferência conjugativa, mecanismo semelhante ao acasalamento bacteriano. Esse processo permite que o material genético editado passe de uma célula para outra.

Assim, poucas bactérias modificadas podem disseminar a capacidade de suprimir a resistência em toda uma população. Trata-se de uma forma de engenharia populacional microbiana, inspirada nos chamados gene drives utilizados em insetos.

Impacto nos biofilmes hospitalares

Outro ponto relevante do estudo é a eficácia do sistema em biofilmes. Essas estruturas são comunidades densas de bactérias que aderem a superfícies e formam uma matriz protetora, dificultando a ação de antibióticos e agentes de limpeza.

Biofilmes estão presentes em:

  • Ambientes hospitalares
  • Equipamentos médicos
  • Estações de tratamento de esgoto
  • Sistemas de aquicultura

Como esses ambientes funcionam como reservatórios de genes resistentes, a nova abordagem pode ter aplicações clínicas e ambientais significativas.

CRISPR e bacteriófagos: combinação estratégica

Além disso, os pesquisadores demonstraram que componentes do sistema podem ser transportados por bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Esses vírus já são estudados como alternativas terapêuticas e podem atuar como veículos naturais para levar o sistema CRISPR às populações bacterianas.

Essa combinação amplia o potencial da tecnologia, permitindo atingir comunidades microbianas complexas com maior eficiência.

Segurança e controle genético

Como medida adicional, a plataforma inclui a possibilidade de remover o cassete genético por meio de deleção baseada em homologia, garantindo maior controle e segurança biológica.

Um possível divisor de águas

Diferentemente das estratégias tradicionais, que apenas tentam retardar o avanço da resistência, o sistema pPro-MobV propõe algo mais ambicioso: reverter a disseminação dos genes resistentes.

Embora ainda em estágio experimental, os resultados descritos em npj Antimicrobials and Resistance sugerem que a combinação de CRISPR, direcionamento genético e transferência conjugativa pode abrir um novo capítulo no combate às superbactérias.

Se confirmada em aplicações clínicas e ambientais, essa tecnologia poderá transformar a forma como enfrentamos a crise global da resistência antimicrobiana.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn