Cápsulas de colágeno rejuvenescem mesmo? Veja o que dizem os especialistas

Estudos questionam efeito do colágeno na pele. (Foto: Horia Ionescu via Canva)
Estudos questionam efeito do colágeno na pele. (Foto: Horia Ionescu via Canva)

Os suplementos de colágeno se tornaram protagonistas nas prateleiras de farmácias e nas redes sociais. Prometem pele mais firme, menos rugas e aparência rejuvenescida. No entanto, quando analisamos as evidências científicas com rigor, o cenário é menos empolgante do que a publicidade sugere.

Dermatologistas ligados à Faculdade de Medicina da Universidade Tufts e ao Tufts Medical Center alertam que o uso de colágeno oral não é considerado tratamento comprovado para o envelhecimento da pele. Destacam ainda que embora alguns estudos apontem possíveis benefícios, a consistência e a qualidade dessas pesquisas levantam questionamentos importantes.

O que mostram os estudos clínicos recentes

Os dermatologistas da Faculdadede Medicina da Universidade Tufts e do Tufts Medical Center ressaltaram que a literatura científica sobre suplementação de colágeno apresenta resultados divergentes. Parte das pesquisas indica melhora discreta na hidratação e na elasticidade cutânea, especialmente com o uso de colágeno hidrolisado. Por outro lado, análises mais rigorosas não confirmam esses efeitos de forma robusta.

Segundo eles, uma meta análise envolvendo 23 ensaios clínicos randomizados observou um dado relevante: estudos que encontraram benefícios tendiam a apresentar menor qualidade metodológica e, frequentemente, financiamento da indústria. Já pesquisas independentes e com critérios mais rígidos não demonstraram ganhos significativos na saúde da pele.

Portanto, embora o tema ainda esteja em investigação, não há consenso científico sólido que justifique recomendar o suplemento como estratégia principal contra rugas ou flacidez.

Como o colágeno age no organismo

O colágeno é a proteína estrutural mais abundante do corpo humano. Está presente na pele, nos ossos, nos músculos e nos tecidos conjuntivos, garantindo firmeza e sustentação.

Com o passar dos anos, a produção natural diminui. Como consequência, surgem sinais visíveis como:

  • Rugas
  • Perda de elasticidade
  • Flacidez
  • Desconforto articular

Entretanto, é importante compreender um ponto essencial. Quando ingerido, o colágeno é fragmentado pelo sistema digestivo em aminoácidos. Isso significa que ele não é absorvido intacto nem direcionado especificamente para a pele. O organismo utilizará esses componentes conforme suas necessidades metabólicas gerais, e não exclusivamente para fins estéticos.

Segurança e qualidade: um ponto de atenção

Outro fator que merece destaque é a segurança dos suplementos. Diferentemente dos medicamentos, esses produtos não passam por avaliação prévia rigorosa de eficácia e segurança antes de chegarem ao mercado.

Além disso, formulações derivadas de fontes marinhas podem apresentar risco de contaminação por metilmercúrio, dependendo do controle de qualidade. Entidades como a Academia Americana de Dermatologia também alertam que muitos produtos não possuem certificação independente nem informações claras sobre composição.

Consequentemente, o consumidor pode estar investindo em algo com benefício incerto e controle limitado.

Estratégias comprovadas para preservar o colágeno natural

Em vez de apostar exclusivamente em cápsulas, especialistas recomendam medidas com maior respaldo científico para estimular e preservar o colágeno natural.

Entre as principais estratégias estão:

  • Alimentação equilibrada, com ingestão adequada de proteínas
  • Consumo de alimentos ricos em vitamina C, como morango, kiwi, pimentão vermelho e frutas cítricas
  • Uso diário de protetor solar para reduzir danos causados pela radiação ultravioleta
  • Aplicação tópica de retinol ou retinoides, sob orientação profissional
  • Evitar o tabagismo, que acelera a degradação das fibras de colágeno

Além disso, sono adequado e controle do estresse contribuem para a saúde cutânea como um todo.

Vale a pena usar colágeno?

Diante das evidências atuais, o colágeno oral não deve ser encarado como solução definitiva para rejuvenescimento. Embora possa ser utilizado como complemento alimentar em alguns contextos, ele não substitui hábitos saudáveis nem tratamentos dermatológicos comprovados.

Em síntese, preservar a juventude da pele depende muito mais de proteção solar consistente, nutrição adequada e cuidados tópicos eficazes do que de promessas em cápsulas.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn