Triceratops usava o nariz para resfriar a cabeça

Nariz do Triceratops ajudava a resfriar a cabeça (Imagem: Pixabay via Canva)
Nariz do Triceratops ajudava a resfriar a cabeça (Imagem: Pixabay via Canva)

Gigante, imponente e facilmente reconhecível, o Triceratops sempre foi lembrado por seus três chifres e pela ampla gola óssea. No entanto, uma investigação recente sugere que outro elemento merece destaque: o seu nariz desproporcionalmente grande pode ter sido uma sofisticada ferramenta de equilíbrio fisiológico.

Pesquisadores da Universidade de Tóquio analisaram crânios fossilizados por meio de tomografias computadorizadas e reconstruções digitais tridimensionais. A partir dessas imagens, foi possível estimar a disposição de tecidos moles que não se preservaram, como vasos sanguíneos, nervos e estruturas respiratórias internas. Os resultados foram publicados no periódico científico The Anatomical Record. Algumas características chamaram atenção:

  • Cavidades nasais extensas e altamente compartimentadas;
  • Trajeto incomum de nervos e vasos sanguíneos;
  • Indícios estruturais compatíveis com cornetos respiratórios;
  • Potencial papel na regulação de calor e umidade.

Reorganização anatômica incomum

Em répteis atuais, o suprimento vascular e nervoso da região nasal segue padrões relativamente previsíveis. No caso do Triceratops, contudo, o próprio formato do crânio modificava esse percurso. A configuração óssea impedia a rota convencional pela mandíbula, redirecionando estruturas internas pela região superior do focinho.

Essa adaptação sugere que o crescimento exagerado do nariz não foi apenas estético ou relacionado ao olfato. Pelo contrário, exigiu uma reorganização anatômica complexa para garantir funcionamento adequado dos tecidos.

Focinho gigante tinha função térmica avançada (Imagem: Getty Images via Canva)
Focinho gigante tinha função térmica avançada (Imagem: Getty Images via Canva)

Além disso, a comparação com aves modernas, descendentes dos dinossauros, fortaleceu a hipótese de que estruturas especializadas estavam presentes, mesmo que invisíveis no registro fóssil.

Um possível sistema natural de resfriamento

O grande destaque da pesquisa é a possível presença de cornetos respiratórios, lâminas internas que ampliam a área de contato entre ar inspirado e vasos sanguíneos. Em animais atuais, essas estruturas ajudam a:

  • Dissipar calor corporal;
  • Manter a temperatura do cérebro estável;
  • Reduzir a perda de água durante a respiração.

Considerando o tamanho maciço da cabeça do Triceratops, controlar a temperatura interna seria fundamental. Um crânio volumoso poderia reter calor excessivo, especialmente em ambientes quentes do período Cretáceo. Assim, um sistema nasal expandido poderia funcionar como mecanismo compensatório.

Evolução além da aparência

Os dinossauros ceratopsianos são famosos por suas estruturas cranianas exuberantes. Entretanto, este estudo indica que, no Triceratops, a anatomia interna era tão relevante quanto a externa. Dessa forma, o nariz gigante deixa de ser apenas um traço chamativo e passa a representar uma adaptação funcional refinada. A descoberta amplia nossa compreensão sobre a biologia evolutiva dos dinossauros, revelando que mesmo características aparentemente exageradas podem esconder soluções fisiológicas inteligentes desenvolvidas ao longo de milhões de anos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes